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Quarta-feira, Dezembro 29, 2004
BALAIO INCOMUN 1570
Desde 8/9/1986
Rio, 29 de dezembro de 2004
40 FILMES CAPITAIS
Os melhores entre os melhores
segundo a minha leitura poético-afetivo-cinematográfica
O encouraçado Potemkin (Eisenstein, 1925)
Em busca do ouro (Chaplin, 1925)
Aurora (Murnau, 1927)
A paixão de Joana d'Arc (Dreyer, 1928)
Um cão andaluz (Buñuel, 1928), curta
O homem da câmera (Vertov, 1929)
Luzes da cidade (Chaplin, 1931)
M, o vampiro de Dusseldorf (Lang, 1931)
O homem de Aran (Flaherty, 1934)
A grande ilusão (Renoir, 1937)
A regra do jogo (Renoir, 1939)
Cidadão Kane (Welles, 1941)
Brief encounter / Desencanto (Lean, 1945)
My darling Clementine / Paixão dos fortes (Ford, 1946)
A terra treme (Visconti, 1948)
O terceiro homem (Reed, 1949)
Contos da lua vaga (Mizoguchi, 1953)
As férias do Sr. Hulot (Tati, 1953)
Era uma vez em Tóquio (Ozu, 1953)
Os amantes crucificados (Mizoguchi, 1954)
Um condenado à morte escapou (Bresson, 1956)
O grito (Antonioni, 1957)
Morangos silvestres (Bergman, 1957)
The touch of evil / A marca da maldade (Welles, 1958)
Hiroshima, meu amor (Resnais, 1959)
Pickpocket (Bresson, 1954)
À bout de souffle / Acossado (Godard, 1959)
A aventura (Antonioni, 1960)
Ano passado em Marienbad (Resnais, 1961)
Eclipse (Antonioni, 1962)
Jules et Jim / Uma mulher para dois (Truffaut, 1962)
Oito e meio (Fellini, 1963)
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)
Simão do Deserto (Buñuel, 1965)
Persona (Bergman, 1966)
Andrei Rublev (Tarkóvski, 1966)
Blow-up (Antonioni, 1966)
2001: uma odisséia no espaço (Kubrick, 1968)
O último tango em Paris (Bertolucci, 1972)
Nostalgia (Tarkóvski, 1983)
1956-2004: 48 anos de registros cinematográficos
posted by MOACY CIRNE
6:54 AM
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DEZ MOMENTOS CINEMATOGRÁFICOS
QUE ME MARCARAM (Final)
9) Em 1968, na tela gigantesca do Roxy, em Copacabana, senti o impacto representado por 2001: uma odisséia no espaço, o filme que teria sido feito não por Stanley Kubrick, mas por um marciano. E que os Beatles estavam vendo uma vez por semana, desde o seu lançamento em Londres. Assim dizia a propaganda da obra. Eu também o estava vendo uma vez por semana. E, confesso, o meu entusiasmo por Pixinguinha, Luiz Gonzaga e Noel Rosa era maior do que o meu possível entusiasmo pelos Beatles. A boa FC cinematográfica, até então, se resumia para mim em O dia em que a Terra parou (Wise), O planeta proibido (Wilcox), Alphaville (Godard) e Fahrenheit 451 (Truffaut). O filme de Kubrick, associado a Arthur C. Clarke, mudou essa história. Passamos a ler com outros olhos a própria literatura especulativa de corte ciencificcional; passamos a ler com outros olhos clássicos como Crônicas marcianas (Bradbury, 1950), O homem ilustrado (Bradbury, 1951), Cidade (Simak, 1952), A cidade e as estrelas (Clarke, 1956), além das obras de Jules Verne e H.G. Wells. Ou mesmo Solaris (Lem, 1961), que resultaria numa adaptação de Tarkóvski em 1972, supostamente a resposta russa ao brilhantismo pulsante de 2001.
10) Na Cinemateca do MAM absolutamente lotada, em outubro de 1977, vi Assuntina das Amérikas, de Luiz Rosemberg Filho, com debate acalorado depois da sessão. Influências de Godard? De Brecht? De Pasolini? Do musical americano reciclado pela política? Há uma cena que marcou época: Nelson Dantas parodiando Gene Kelly em Cantando na chuva. O filme nunca seria liberado pela censura; a ditadura militar massacrava a todos nós, fazendo-nos sangrar e chorar pelas veias abertas da América Latina. Como no livro de Eduardo Galeano. Enquanto isso, Rosemberg, que colaborava no jornal de esquerda Versus, representava a ideologia da "estética da fome" glauberiana contra a ditadura militar e os padrões narrativos do cinemão colonizador, cuja matriz era mais do que um tigre de papel. Ele e poucos outros, em se tratando do nosso cinema, vislumbravam o caminho da luta ideológica e política; representavam sonhos que não se calavam, apesar da repressão, apesar da censura, apesar do medo. No ano seguinte, a propósito do filme, escrevi um pequeno texto para a Revista de Cultura Vozes, de Petrópolis: "Assuntina existe, em primeiro lugar, como um antimusical. Neste sentido, a homenagem ao clássico Cantando na chuva funciona como uma referência crítica. Mas Assuntina é mais do que um antimusical: é uma reflexão política, enquanto discurso cinematográfico, sobre o sistema narrativo imposto ideologicamente por Hollywood, cuja linearidade romanesca tem embotado os nossos consumidores e criadores (...) Ao apontar caminhos, ao discutir questões, ao engendrar um novo ritmo/tempo narrativo, Assuntina é um filme radical: com suas falhas, com suas hesitações, mas também com seu desespero e sua grandeza" (republicado em A biblioteca de Caicó, 1983).
posted by MOACY CIRNE
6:36 AM
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LIVROS QUE LEVARÍAMOS
PARA UMA TEMPORADA DE 66 AURORAS EM SÃO SARUÊ
( 20 / 66 )
Livro geral, de Carlos Pena Filho. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1959, 123p. Reunião de sua obra publicada até então: O tempo da busca, Memórias do boi Serapião e A vertigem lúcida, além de sua produção inédita -- Nodesterro, Cinco aparições sem data e Guia prático da Cidade de Recife (que contém os famosos versos: "Porisso no bar Savoy, / o refrão é sempre assim: / São trinta copos de chopp, / são trinta homens sentados, / trezentos desejos presos, / trinta mil sonhos frustrados". Nunca mais estive no Savoy; será que ele ainda existe? Será que continua o mesmo?). A verdade é que o pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960), pouco conhecido no Sul Maravilha, é um dos maiores poetas líricos do país em todos os tempos. Sobre ele nos disse outro grande poeta da pernambucália tropical: "Escrevo esse nome -- Carlos Pena Filho -- e estou certo de que o inscrevo na eternidade. Pois me parece impossível que as presentes e as futuras gerações esqueçam o poeta encantador, tão cedo e tão tragicamente desaparecido" (Manuel Bandeira). Eis um exemplo magnífico de sua poesia:
Deu-lhe a mais limpa manhã
que o tempo ousara inventar.
Deu-lhe até a palavra lã,
e mais não podia dar.
Deu-lhe o azul que o céu possuía
deu-lhe o verde da ramagem,
deu-lhe o sol do meio dia
e uma colina selvagem.
Deu-lhe a lembrança passada
e a que ainda estava por vir,
deu-lhe a bruma dissipada
que conseguira reunir.
Deu-lhe o exato momento
em que uma rosa floriu
nascida do próprio vento;
ela ainda mais exigiu.
Deu-lhe uns restos de luar
e um amanhecer violento
que ardia dentro do mar.
Deu-lhe o frio esquecimento
e mais não podia dar.
(As dádivas do amante, p.75).
posted by MOACY CIRNE
12:35 AM
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Terça-feira, Dezembro 28, 2004
NOSSA DOR, NOSSO LUTO
por Susan Sontag (1933-2004), que faleceu hoje em Nova York.
Autora de vários livros importantes (A vontade radical, Ensaios sobre fotografia, Sob o signo de Saturno, A doença como metáfora, Contra a interpretação), era uma aguerrida militante das causas socialistas em terras americanas.
Entusiasta do cinema e da literatura, seus ensaios sobre Persona (Bergman) e Jean-Luc Godard, em A vontade radical, são definitivos. Aliás, seus filmes preferidos incluiam Era uma vez em Tóquio (Ozu), A regra do jogo (Renoir), Europra 51 (Rossellini), Hitler, um filme da Alemanha (Syberberg), Obsessão (Visconti), Antes da revolução (Bertolucci), Ano passado em Marienbad (Resnais) e A aventura (Antonioni), entre outros.
posted by MOACY CIRNE
7:11 PM
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LIVROS QUE LEVARÍAMOS
PARA UMA TEMPORADADA DE 66 AURORAS EM SÃO SARUÊ
( 19 / 66 )
Os grandes escritos anarquistas, de George Woodcock (int. & sel.). Trad. Júlia Tettamanzi & Betina Becker. Porto Alegre: L&PM Editores, 4ª ed., 1990, 361p. Uma das melhores seleções de textos anarquistas publicadas no Brasil, até o momento. Ou, pelo menos, até 1981, ano da primeira edição nacional. Há uma boa introdução histórica do organizador e inúmeros textos básicos, de Malatesta a Proudhon, de Bakunin a Kropotkin. Vale a pena destacar: A igreja e o estado (Michael Bakunin), A política normal e a psicologia do poder (Paul Goodman), A inutilidade das leis (Peter Kropotkin), Sobre a propriedade (William Godwin), Socialismo estatal e anarquismo (Benjamin Tucker), A origem da revolução (Pierre-Joseph Proudhon), Desobediência civil (Henry David Thoreau), A organização da produção (James Guillaume), Anarquismo e ecologia (Murray Bookchin). Outros autores estão presentes, como Oscar Wilde e Herbert Read. Decerto, a discussão sobre o socialismo libertário, que data do século XIX, tem empolgado muita gente boa nos últimos anos, sobretudo depois da falência do socialismo praticado na União Soviética e países do bloco soviético (Polônia, Hungria, Tchecoslováquia e outros). Mas é bom que se diga que o socialismo em questão não passava de um socialismo equivocado desde os tempos de Stalin. Também é bom que se diga que os princípios teóricos do anarquismo são sérios e devem ser levados em consideração, inclusive por aqueles de formação marxista, para criticá-los adequadamente, se for o caso. Mas, em nosso mundo da poesia popular, não seria a São Saruê criada pelo poeta Manoel Camilo dos Santos uma sociedade libertária? E diante do capitalismo multinacional dos nossos dias, mais e mais selvagem, mais e mais cruel, não seria o anarquismo uma utopia por demais distante e irrealizável? Seja como for, vale a pena conhecer a crítica e a teoria do socialismo libertário.
posted by MOACY CIRNE
6:46 AM
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Domingo, Dezembro 26, 2004
Cinema
OS MELHORES FILMES VISTOS EM 2004
1. Ordet / A palavra *** (Dreyer, 1955)
2. Le carrosse d'or / A carruagem de fogo *** (Renoir, 1952)
3. Nossa música *** (Godard, 2003)
4. Dogville *** (Von Trier, 2003)
O retorno ** (Zvyagintsev, 2003)
Moça com brinco de pérola ** (Webber, 2003)
Moloch ** (Sokúrov, 1999)
Os sonhadores * (Bertolucci, 2003)
Mystic river / Sobre meninos e lobos * (Eastwood, 2003)
Lost in translation / Encontros e desencontros * ([S] Coppola, 2003)
Peões * (Eduardo Coutinho, 2004)
Raízes do Brasil I * (Nelson Pereira dos Santos, 2004)
O joelho de Claire * (Rohmer, 1970)
As bicicletas de Belleville * (Chomet, 2003), animação
Outros filmes:
Zatoichi (Kitano, 2003)
Fahrenheit 11 de setembro (Moore, 2003)
Laissez-passer / Passaporte para a vida (Tavernier, 2001)
O último samurai (Zwick, 2003)
Adeus, Lênin! (Becker, 2003)
Narradores de Javé (Eliane Caffé, 2003)
Destino (Disney & Monfery, 2003), curta/animação
Principais diretores
(pontuação acumulada)
Antonioni ( 29/12/07 )
Godard ( 28/13/06 )
Welles ( 25/12/05 )
Bergman ( 21/10/03 )
Buñuel ( 20/11/03 )
Renoir ( 20/10/03 )
Visconti ( 17/10/03 )
Bresson ( 17/08/03 )
Ford ( 15/06/04 )
Resnais ( 15/06/03 )
Bertolucci ( 14/08/01 )
Chaplin ( 14/08/03 )
Kubrick ( 13/07/02 )
Eisenstein ( 12/07/02 )
Vertov ( 12/05/02 )
Wilder ( 11/07/02 )
Hitchcock ( 11/06/02 )
Fellini ( 10/06/01 )
Glauber Rocha ( 10/05/02 )
Tarkóvski ( 10/04/03 )
Mizoguchi ( 10/04/02 )
Tati ( 09/04/02 )
Atenção:
Os primeiros números referem-se à pontuação;
os segundos, aos filmes que mereceram pontos;
os terceiros, às obras-primas de cada diretor.
Os pontos são distribuídos da seguinte forma:
*** (obras-primas) -- 3 pontos;
** (excelentes) -- 2 pontos;
* (ótimos) -- 1 ponto.
Nota:
A palavra, A carruagem de fogo e Moloch foram vistos em vídeo/dvd.
posted by MOACY CIRNE
12:18 AM
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Sábado, Dezembro 25, 2004
ALMANAQUE DO BALAIO N° 9
Um disco: Matita Perê (1973), de Tom Jobim
Um clássico: Vésperas da Virgem (1610), de Claudio Monteverdi
Um filme: A felicidade não se compra (1946), de Frank Capra
Um quadrinho: Super-Cupim (1971), de Emanoel Amaral
Um livro: Bíblia, de Jesus Ben Sira & dezenas de autores anônimos
Uma livraria no Rio: Vozes (Rua México, Centro)
Um artista: Marc Chagall (1887-1985)
Um poeta potiguar: Jorge Fernandes (1887-1953)
Um caba porreta: Wlademir Dias Pino (Rio)
Uma mulher de fibra: Patrícia Galvão / Pagu (1910-1962), escritora paulista
Um jogador de futebol: Ademir Menezes (Sport Recife, Vasco, Fluminense)
Uma expressão nordestina: Torar (= cortar; decepar)
Uma beleza feminina: Helena Ignez, em O padre e a moça (1966)
Um blogue: Contra o vento, de Acir Vidal
Uma cidade: Natal (RN)
Um lugar no Rio: Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, no Largo da Carioca
Uma bebida: Caldo de cana
Uma curiosidade: O primeiro símbolo de posse da terra brasileira pelos portugueses é o Marco de Touros -- uma coluna de pedra de 1,3m de altura, com uma cruz esculpida e inscrições em latim, árabe e português --, fixado no litoral norte-rio-grandense em 1501, e que hoje se encontra na Fortaleza dos Reis Magos, em Natal.
Uma citação: "... gosto muito das histórias em quadrinhos, pois nelas há mais imaginação do que no cinema, porque a mão e o lápis são às vezes um pouco mais livres, e precisa-se realmente de talento" (Jean-Luc Godard, in Introdução a uma verdadeira história do cinema, 1989 [1980], p.98).
posted by MOACY CIRNE
9:34 AM
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Sexta-feira, Dezembro 24, 2004
LIVROS QUE LEVARÍAMOS
PARA UMA TEMPORADA DE 66 AURORAS EM SÃO SARUÊ
( 18 / 66 )
Bíblia Sagrada [Primeiro Testamento: c.750aC-150aC; Segundo Testamento: c.60dC-100dC]., de Jesus Ben Sira [c.200aC] & vários autores anônimos. Coord. Geral: Ludovico Garmus. Trad. Domingos Zamagna & outros. Revisor literário: Emmanuel Carneiro Leão. Petrópolis: Vozes, 1983, 1548p. Coletânea de relatos alegóricos, ora profundamente religiosos, ora sabiamente políticos, ora marcadamente literários, sob a suposta inspiração de um Ser Superior (Deus ou Javé), que serviu de base para a construção histórica do judaísmo (a partir do Primeiro Testamento) e do cristianismo (a partir do Segundo Testamento). Produzida no decorrer de aproximadamente 850 anos por homens e mulheres que acreditavam na necessidade da união de seus povos, impondo leis e preceitos que julgavam corretos, escrita em três línguas (pequena parte em aramaico, grande parte em hebraico e grego), a Bíblia -- que contém algumas belas passagens poéticas (como o Cântico dos cânticos) -- não deve, ou não deveria, ser lida literalmente, como o fazem os fundamentalistas judeus e cristãos. Justamente por ter sido escrita por pessoas diferentes, em lugares e épocas diferentes, passando, nos primeiros tempos de elaboração, por diversas compilações para atender interesses específicos, mesmo considerando que alguns fatos históricos nela narrados são parcialmente verdadeiros, é uma obra carregada de incoerências e contradições, além das diferenças de estilo e organização textual. "Um fabuloso emaranhado de relatos, interpretações e profecias desenvolveu-se assim a partir da confusão de textos antigos e compostos: nenhuma parte dele era verdadeira, e na época de Jesus [Jesus Cristo] ninguém mais lia corretamente as escrituras, porque ninguém mais as conhecia. Seus leitores lhe atribuíam, de forma embaralhada, a autoria a Moisés ou a Samuel; distorciam seu significado; e, por mais que seja interessante examinar o que encontravam nelas, ou de que maneira o faziam, permanece o fato de que tais descobertas eram, em sua maioria, inteiramente falsas. // No entanto, tudo isso era acompanhado de um grande respeito pelos próprios textos, considerados objetos sagrados. Em muitos deles, os escribas tinham copiado uma importantíssima palavra de quatro letras, JHVH, o nome de Deus" (Robin Lane Fox, Bíblia -- Verdade e ficção. São Paulo: Companhia das Letras, 1993, p.98-99). Mesmo assim, trata-se de uma obra poderosa, de inegável influência sobre milhões e milhões de pessoas em todo o mundo ocidental, uma das seis ou sete mais importantes produzidas na história da humanidade, ao lado do Alcorão islâmico, dos principais textos de Shakespeare, d'A divina Comédia de Dante, do Dom Quixote de Cervantes, d'Os lusíadas de Camões, aqui entendidos a partir de pressupostos literários e culturais. Decerto, no caso concreto do cristianismo, a revisão dos textos bíblicos atendia -- e atende -- a exigências de dominação ideológica e cultural. O próprio Cristo -- cuja data de nascimento até hoje é ignorada, já que o 25 de dezembro não passava de uma festa pagã comemorada pelos romanos -- "fundou o cristianismo sem nunca ter dito que precisava de escrituras próprias. Nada do que é dito nos Evangelhos sugere que Jesus tenha antecipado uma versão escrita do Novo Testamento. Em nenhum lugar se diz que ele tenha pedido ou esperado que seus ensinamentos fosse anotados por escrito. Os primeiros cristãos eram pessoas de fé, e não fundamentalistas textuais: ouvir Pedro ou Paulo era ouvir um homem dotado de uma convicção, e não de uma Bíblia e uma nova mensagem em cujo apoio os velhos textos eram citados" (Robin Lane Fox, obra citada, p.109). Para finalizar, ou quase, mais uma vez recorramos a Robin Lane Fox: "A ascensão do cristianismo ocorreu em meio a um frenesi de manipulação textual que, em parte, ela própria estimulava: as religiões gentias nunca tinham visto nada parecido" (p.126). Apesar de tudo, e dos acréscimos e subtrações dos textos bíblicos e, principalmente, do obscurantismo que o marcou em muitos períodos da história (vide o exemplo da "Santa" Inquisição), é preciso respeitar o cristianismo, Neste particular, nos últimos 40/50 anos, a sua vertente preferencial pelos pobres e a Teologia da Libertação nos fizeram e ainda nos fazem acreditar que nem tudo está perdido no Reino de Cristo. E que a comemoração da Natividade, mesmo com sua origem pagã, mesmo sendo, hoje, encampada pelo capitalismo o mais desenfreado possível, seja um momento de reflexão para todos nós, cristãos e não-cristãos.
posted by MOACY CIRNE
10:52 AM
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Quinta-feira, Dezembro 23, 2004
LIVROS QUE LEVARÍAMOS
PARA PARA UMA TEMPORADA DE 66 AURORAS EM SÃO SARUÊ
( 17 / 66 )
A ave, de Wlademir Dias Pino. Cuiabá: Igrejinha, 1956, s/n. A ave voa dentro de sua cor: codificação do espaço; codificação das cores -- semiotização do poema visual. É preciso lembrar: não se trata de um "vôo" figurativo, mas de um "vôo" que é grafia em estado bruto, em estado puro. Mais do que um poema-livro, um livro-poema -- antes das facilidades computacionais: o suporte material do objeto-poema, aqui, não é um mero suporte físico. Basta ver seus elementos composicionais: a textura do papel, a transparência de algumas folhas, as perfurações, os cortes, tudo faz parte da construção do livro-poema, com suas indicações gráficas, com suas indicações significacionais. Pois é, pois sim: entre os fundadores da poesia concreta, trata-se do nome mais importante, mais explosivo, em sua vertente semiótico-espacional. Ou seja, em sua concretude semiótica, abrindo espaço para a aventura planificada do solida, em 1962. Aliás, por falar em solida, Décio Pignatari e Luiz Ângelo Pinto reconheceram em 1964 o pioneirismo (anti)poético-semiótico de WDP. O fato é que, já em 1967, A ave serviu de base para os estudos semióticos e antiliterários que prepararam o terreno cultural para o lançamento em Natal e no Rio de Janeiro (com repercussões imediatas em Minas Gerais) do poema/processo, que explorava os conceitos de matriz e série, projeto e versão, especificidade do material e contra-estilo, procurando, com engenho e arte, espantar pela radicalidade, apostando na relação arte/política/história. Enquanto faziam o poema/processo, seus poetas, artistas e produtores se colocavam claramente contra a ditadura militar que dominava o país. No apogeu do movimento (1968/69), cerca de 90 a 110 poetas questionavam a poesia acadêmica, a arte museológica e, em muitas ocasiões, a política dos quartéis e dos coronéis.
posted by MOACY CIRNE
6:34 AM
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Quarta-feira, Dezembro 22, 2004
Dos nossos Arquivos Balaiográficos
BALAIO 1450
Rio, 16/novembro/2001
Tiragem acumulada: 266.980 cópias
Memória
OS MELHORES CONTOS
SEGUNDO MURILO RUBIÃO
[in Revista Vozes, setembro 1978]
1. O poço e o pêndulo (Poe)
2. Os exilados de Poker Flat (Harter)
3. Quatro encontros (James)
4. Missa do Galo (Machado de Assis)
5. Acender um fogo (London)
6. Bola de sebo (Maupassant)
7. A luz da outra casa (Pirandello)
8. Os assassinos (Hemingway)
9. O capote (Gogol)
10. Uma rosa para Emily (Faulkner)
Nota: Murilo Rubião, já falecido, é considerado um dos mais brilhantes contistas da história literária de Minas Gerais.
OS MELHORES FILMES
SEGUNDO ROBERT BENAYOUN
[in Top 100 movies, 1988]
1. Vidas amargas (Kazan)
2. A regra do jogo (Renoir)
3. Luzes da cidade (Chaplin)
4. Cidadão Kane (Welles)
5. Ano passado em Marienbad (Resnais)
6. Amarcord (Fellini)
7. Viridiana (Buñuel)
8. A aventura (Antonioni)
9. Andrei Rublev (Tarkóvski)
10. Relíquia macabra (Huston)
Nota: Benayoun, nos anos 60 e 70, destacava-se como um dos principais críticos de cinema e histórias-em-quadrinhos da França.
posted by MOACY CIRNE
7:26 AM
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Segunda-feira, Dezembro 20, 2004
LIVROS QUE LEVARÍAMOS
PARA UMA TEMPORADA DE 66 AURORAS EM SÃO SARUÊ
( 16 / 66 )
Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, 594p. Nonada, sim e não. Travessia. O sertão é muito escrevivência. Assim, sim. Palavrenças. Tresmelhor: brechando palavrenças, nossas crenças, nossas desavenças. Ou não? Ou sim? Destalvez. Escrita neblinante: o mais todocriador romance do século XX, a poesia seja aqui, seja nas estrangeirâncias, seja em Caicó Sertão Seridó. Ou nas gerais Minas. Pois é, poisé. Riobaldo/Diadorim: o amor que não quer dizer o nome. É o que refalam, lá nos cafundós. Homem com homem vira lobisomem. Só que Diadorim não é Diadorim: é uma Noitedeodorina, dia e dor, dia e noite, como o sol não acende a água do rio Urucuia, como eu solucei o meu desespero. Assim é: o livro, livre, barco livre, barco bêbado. Barroco e neobarroco, deus e o diabo na terra do sol, deus e o diabo na terra em transe, o Rio Seridó dos nossos sonhos: o Rio do Chico, tão grande, tão soberano, piraporapiraporando. Nonada, sim e não. O sertão é muito porretância. Extravagância? Dentro dos nossos silêncios. Dentro dos nossos mundaréus. Claridade e nuvens. Pactância, houve ou não houve? O Diabo, diacho. Longe, as lonjuras; perto, as aberturas. Aqui, acolá: o livro, o sertão, romanceiramente. Epopéia singular? Nonada: o Coisa-Ruim existirá? O diabo na rua, no meio do redemunho. Tudo foi contado? Podia ser? Impossivelmente. Jagunçagem. Monólogo, sim. Riobaldei-me. Maiormente, riobaldei-me. O senhor sabe, num sabe? Depois das tempestades -- as tempestades sertânias, as tempestades verbalências. Deusdar, deusdará. Digo: doidice. Doiduras da escrita. Aqui o livro se acabou. Aqui o livro acabado. Aqui o livro acaba. E recomeça: magia. Nonada, sim e não. Sim e tudo. Travessia.
posted by MOACY CIRNE
9:48 PM
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DEZ MOMENTOS CINEMATOGRÁFICOS QUE ME MARCARAM (3)
Continuando:
5) Em outubro de 1962, em Recife (no Trianon, se não estou enganado), aconteceu A aventura, de Antonioni. E aconteceu para ficar para todo o sempre em minhas lembranças de cinéfilo. Decerto que me apaixonei por Monica Vitti. Contudo, era muito mais do que uma paixão pela atriz do filme: tratava-se de uma paixão pelo próprio filme como realização e concepção. Ainda hoje, mais de 40 anos depois de tê-lo visto, e já o vi mais de 30 vezes, o filme de Antonioni parece-me dramaticamente cristalino, cuja beleza formal se completa com os sentimentos de abandono e apatia existenciais de seus personagens. Já o escrevi antes (em Cinema, cinema [Natal: Sebo Vermelho, 2003]: ao sair da sessão, naquela manhã ensolarada de domingo, vaguei pelas ruas de Recife durante horas, sem saber o que fazer da vida, sem saber o que fazer do mundo, sem saber o que fazer com as minhas leituras de Kafka e Camus, Faulkner e Fernando Pessoa, Graciliano e Machado de Assis.
6) Em 1963, no Cine Nordeste, em Natal, O encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, atingiu-me em cheio. Na época, eu já escrevia sobre cinema (para a Tribuna do Norte). Passei quase um mês falando sobre a importância do filme, a partir, naturalmente, de minhas leituras. Lembro-me bem: no primeiro dia de exibição -- um sábado --, vi as quatro sessões programadas, sem sair do cinema, a não ser rapidamente, entre uma sessão e outra, para lanches eventuais. Na ocasião, eu lutava (no campo das idéias) pela possibilidade de um Brasil Socialista, e o filme era o panfleto por excelência: o panfleto dos meus sonhos libertários, já que avançava formal e estruturalmente na discussão da dicotomia arte/política. Registre-se que desde fevereiro de 63, inicialmente no Rex, funcionava o Cinema de Arte de Natal, promovido pelo Cineclube Tirol, do qual, ao lado de Gilberto Stabili, Bené Chaves, Francisco Sobreira, Valdeci Lacerda, Juliano Siqueira, Falves Silva, Alderico Leandro, Palocha e vários outros, eu fazia parte. O Potemkin não deixava de ser um presente dos céus socialistas para todos nós.
50 ANOS DE FLUMINENSE
Completei ontem 50 anos de torcida pelo Tricolor das Laranjeiras. No Maraca, já comemorei dois títulos nacionais (1970 e 1984) e vários títulos estaduais: 1969, 1971, 1973, 1975, 1976, 1980, 1984, 1985, 2002. Não estava presente nas conquistas de 1983 e 1995. Por falar em futebol, parabéns aos torcedores do Flamengo e do Botafogo, que, ontem, viram seus clubes se livrarem do fantasma do rebaixamento. O empate alvi-negro, então, foi particularmente dramático. E parabéns ao Santos, que, desde já, se credencia para o seu primeiro bicampeonato em 2005, quando lutará por seu terceiro título brasileiro.
posted by MOACY CIRNE
9:24 AM
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Domingo, Dezembro 19, 2004
Memória
EU, TOM JOBIM
ATIVIDADE PROFISSIONAL
Músico.
ATIVIDADES OUTRAS
a) Fabricante de soltador de papagaios.
b) Pescador: com um caniço na mão a gente pode ficar o tempo que quiser, à superfície das águas, sem ser chamado de louco.
c) Chofer de VW, com delírio ambulatório.
PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES
Caixa alta: vagabundagem. Flanar pelas tardes de Ipanema.
Caixa baixa: "tremendous work".
QUALIDADES PARADOXAIS
Sou um boêmio doméstico, um tanto burro, um vagabundo trabalhador e um bagunceiro organizado.
PONTOS VULNERÁVEIS
Sou vulnerável em todos os pontos: depende do mV2 do projétil. Mas uso couraça.
ÓDIOS INCONFESSOS
Contra os letristas estrangeiros, quando deturpam as letras alheias.
PANACÉIA CASEIRA
Deixar de fumar, água e sal, saco de água quente, saco de gelo, banho frio, aspirina, banho quente, whisky-librium.
SUPERSTIÇÕES INVENCÍVEIS
Medo de avião.
TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS
Para um homem amarrado e amordaço, elas não existem.
MEDOS ABSURDOS
Para quem tem medo nada é absurdo. Absurdo é ter medo. Mas há surdos que não têm medo.
ORGULHOS SECRETOS
Paulo e Elizabeth, meus filhos.
[ Texto de Tom Jobim, in Senhor, Rio, dezembro de 1962 ]
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7:29 AM
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Sábado, Dezembro 18, 2004
ALMANAQUE DO BALAIO N° 8
Um disco: Sol e chuva (1997), de Alceu Valença
Um clássico: As 4 estações (1725), de Antonio Vivaldi
Um filme: O evangelho segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini
Um quadrinho: Urbanóides (1972), de Lapi
Um livro: Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda
Uma livraria no Rio: Largo das Letras (Almte Alexandrino, 501, Santa Teresa)
Um artista: Candido Portinari (1903-1962)
Um poeta potiguar: Moysés Sesyom (1883-1932)
Um caba porreta: Hildeberto Barbosa Filho (João Pessoa, PB)
Uma mulher de fibra: Anayde Beiriz (1905-1930), professora paraibana
Um jogador de futebol: Rivelino (Corinthians, Fluminense...)
Uma expressão nordestina: Prativai (= pênis, pau, caralho)
Uma beleza feminina: Rejane Medeiros (RN), atriz dos anos 70/80
Um blogue: Poesia sim, de Lau Siqueira
Uma cidade: Campina Grande (PB)
Um lugar no Rio: O Passeio Público, no Centro
Uma bebida: Água de coco
Uma curiosidade: Em São Paulo e no Rio, em 1903, a velocidade dos primeiros automóveis em circulação foi limitada a incríveis 30 quilômetros horários. Tem muita gente achando que é uma velocidade excessiva para os nossos padrões urbanísticos. Na capital paulista -- a terceira maior cidade do país, depois de Rio e Salvador -- já são seis carros circulando pelas ruas.
Uma citação: "Acho que a história do Brasil é um romance sem heróis" (Raymundo Faoro, em entrevista para a Veja /abril de 1976/).
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7:12 AM
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Sexta-feira, Dezembro 17, 2004
POEMAS DE
SÉRGIO DE CASTRO PINTO (PB)
escrever/não escrever
escrever é um suicídio branco.
um consumir-se
no fogo brando das palavras.
não escrever, um suicídio em branco.
um consumar-se sem metáforas.
recado a pound
pound, eu não sou
nenhuma antena.
eu sou a pane e a interferência
dos meus fantasmas
no tubo de imagens dos poemas.
[in O cerco da memória. João Pessoa, 1993 ]
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9:08 PM
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DEZ MOMENTOS CINEMATOGRÁFICOS MARCANTES (2)
Continuando:
3) No segundo semestre de 1959, ainda em Caicó, causou-me forte impressão o filme de animação Velhas lendas tchecas, de Jiri Trnka. Numa revista paulista (Cine-Fan), lera que se tratava de uma jóia rara do cinema de animação de procedência européia. Até então, só conhecia os desenhos animados de Mickey e Tom & Jerry. Confesso: foi um choque, com sua bela animação de marionetes, ampliado pela reação da platéia logo nos primeiros minutos de projeção. É verdade: o som do Pax era muito ruim e o filme sendo dublado, como o de Trnka, a possibilidade de entender a narração era remota. (Sofríamos com os filmes nacionais.) Aconteceu, então, o pior: a maior vaia que já vi para um filme, o que me irritou profundamente. Pela primeira vez, na terra de José Augusto, eu saía do cinema indignado. Entre os caicoenses, quem estava naquela sessão? Quem, concretamente, ainda se lembra do filme de Trnka? Somente em 1961, no Rex, em Natal, voltei a ver Velhas lendas, confirmando a beleza da obra. Depois, em 1967, na Cinemateca do MAM, no Rio, voltaria a vê-lo: o entusiasmo permanecia intacto. Não o revejo há algum tempo, mas a impressão que tenho, recorrendo à memória, é que o filme não envelheceu.
4) No decorrer de 1960, em Natal (terá sido no Rex?), houve A grande ilusão, de Jean Renoir. As minhas leituras sobre cinema, inclusive aquelas que diziam de sua história, já estavam bastante avançadas. O crítico e historiador Georges Sadoul aparecia como autor obrigatório para todos nós. Através dele, e de alguns poucos outros, sabíamos da importância histórica e estética do filme de Renoir. E o filme não nos decepcionou. Fizemos, então, a primeira seleção dos melhores filmes vistos numa dada temporada: 1960, que iniciei em São Paulo, foi um grande ano, para mim. Além de Renoir, vi Welles (A marca da maldade), Tati (Mon oncle e As férias do Sr. Hulot), Bergman (Sorrisos de uma noite de amor e Quando as mulheres esperam), Chaplin (Tempos modernos e O grande ditador), Hitchcock (Vertigo e Tortura do silêncio), Zinnemann (Matar ou morrer), Kurosawa (Os sete samurais, visto no Cineclube Marista), além de Um rosto na multidão (Kazan), Os que sabem morrer (Mann), Gervaise, a flor do lodo (Clément), Les girls (Cukor), Estranha compulsão (Fleischer), E Deus criou a mulher (Vadim), A trapaça (Fellini), Rio violento (Kazan, mais uma vez), O homem do riquixá (Inagaki), Aquele que deve morrer (Dassin). Sim, 1960 foi um ano excepcional. Mas ainda era preciso ver muita coisa marcante, muita coisa indispensável, muita coisa básica para a história das formas cinematográficas, tais como: O encouraçado Potemkin, Outubro, Tempestade sobre a Ásia, A caixa de Pandora, A regra do jogo, No tempo das diligências, O tesouro de Sierra Madre, Cidadão Kane, Soberba, Desencanto. Ou o principal de Rossellini, a começar por Roma, cidade aberta.
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5:30 AM
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Quinta-feira, Dezembro 16, 2004
POEMA DE MAX MARTINS (PA)
O amor ardendo em mel
Morder! morder o
hímem adocicado
-- frêmito de lâmina
entre duas coxas
do polo ao pólem.
E o apolo laminar morder
Morder os bicos dos figos
antes que murchos
antes dos dentes
sempre morder
e jamais sugar
da lua a sua ferrusgem.
Morder somente a sua semente
antes de agora
antes da aurora
morder
e arder em mel
o amor.
[ in Anti-retrato /1960/,
republicado em Não para consolar /1992/ ]
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10:12 PM
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DEZ MOMENTOS CINEMATOGRÁFICOS
QUE ME MARCARAM (1)
Como espectador que se transformou em cinéfilo, posso dizer que em minha história de vivências cinematográficas há 10 momentos que me marcaram bastante. De certo modo, são dez momentos mágicos, a partir de minha própria relação com o mundo, que se inicia nos sertões da minha terra, entre os rios Seridó e Barra Nova. Decerto, há outros momentos de igual modo importantes, inclusive mais recentemente. Mas os dez momentos apontados a seguir têm algo de especial, quase inexplicável, em minha formação cinematográfica: são os momentos que me fizeram sentir, em toda a plenitude, o que era "gostar" de cinema como arte & prazer. E hoje, com mais de 60 anos, costumo dizer: não corro mais atrás dos filmes; os filmes que corram atrás de mim. Mas não mudemos de assunto, eis os meus "momentos mágicos":
1) Em janeiro de 1953, no Cinema Rex, em Natal, com menos de dez anos (nasci em março de 1943), a visão de Carlitos em Luzes da cidade preencheu a minha existência de menino caladão, de menino bicho-do-mato, de menino desconfiado. Aos cinco anos, morando em Caicó, comecei a ser tocado pela magia do cinema. Para mim, leitor de gibis e seriados encantatórios, apreciador de pássaros madrugadores e crepúsculos barrocos, o cinema era uma extensão do mundo; Carlitos era uma extensão da minha família. Eu sentia que aquele vagabundo era um vagamundo, vasto e vago mundo. Eu sentia que, a qualquer momento, poderia encontrá-lo nas ruas de Natal ou Caicó, Campina Grande ou Jardim do Seridó. Tudo era possível, tudo era encantamento. Carlitos era uma figura real, de carne e osso, coração, suor e tripas. Muito mais real do que Charles Chaplin.
2) No primeiro semestre de 1956, no Cinema Pax, em Caicó, vivenciei o impacto de Rashomon, de Akira Kurosawa. Fui vê-lo com o meu tio Silvino; como os dois não o entendemos -- e eu tinha lido que era uma obra premiada, uma obra consagrada pela crítica mundial --, despertou-me a curiosidade pelos caminhos imaginários e criativos da linguagem cinematográfica. Comecei, então, a ler sobre qualquer aspecto histórico, sociológico ou estético que tivesse a ver com seu processo artístico. Comecei, de igual modo, a registrar os filmes que via. Kurosawa permanecia um mistério, que só seria desvendado muito tempo depois: o que é verdade?, o que é mentira? As quatro versões mostradas de um mesmo episódio (a morte de um viajante e o estupro de sua mulher pelo bandido que os atacara), com base no romancista Ryunosuke Akutagawa, revelam "não tanto a impossibilidade de conhecer a verdade através da consciência humana quanto a de acreditar na bondade do homem, porque, em cada uma das versões, um dos personagens do drama se revela mesquinho" (André Bazin, in O cinema da crueldade).
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3:40 PM
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Quarta-feira, Dezembro 15, 2004
POEMAS DE PACO CAC
Essa dor
é um desejo
febre, tiro certeiro
Dia sem ritmo
noite perdida
estrela sem rumo
Esta dor não tem defeito
meio Morse
Dessegredo
[ * ]
Que venha o sono
que venha a treva
essa coisa súbita, essa coisa eterna
Que venha o hino das manhãs
cega luz
Apocalipse no quarto
[ * ]
Palavra minha
Arma sagrada
Texto recolhido ao acaso
Registro triturado
Fragmento e retalho
Este é o poema
Diário
[ * ]
Aqui o fato
Pacto entre a fala e o falo
Ecos reproduzidos
Nesta farsa
Falta a palavra
Acabo
[ in Pulso. Brasília, 2004 ]
LANÇAMENTO DE PULSO
Será amanhã, quinta-feira, 16 de dezembro, a partir de 19h, o lançamento de Pulso, do poeta e agitador cultural carioca Paco Cac, hoje residindo em Brasília. O evento acontecerá na livraria Al-Fãrãbi, Rua do Rosário, 30, no centro do Rio. Uma ótima ocasião para se rever a figura de Paco Cac, que sempre prestigiou a poesia alternativa produzida entre nós.
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7:15 PM
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Segunda-feira, Dezembro 13, 2004
AUTOBIOGRAFIA EM TRANSE
Ao que tudo indica, nasci no sertão do Rio Grande do Norte. Mas também posso ter nascido em Rondônia, ou numa ilha qualquer do Pacífico. O ano do nascimento? Talvez 1943, talvez 1917, talvez 1935, talvez 1922. Nunca morei em Londres, Paris ou San Francisco. Em compensação, morei em Caicó, Natal e São Saruê. Hoje resido no Rio de Janeiro, Fevereiro e Março. E, embora não conheça Nova York e Barcelona, já estive em Parati e nas principais cidades marcianas, em companhia de Bradbury e Lovecraft. Acreditem ou não, participei da fundação do poema/processo, em 1967; fui professor de Comunicação na UFF (1971-2003); escrevo sobre quadrinhos; tenho duas filhas maravilhosas (Isadora e Ana Morena) e uma nega que se chama Fátima Arruda. Em tempotempotemporal: edito o Balaio Incomun desde 1986; publiquei, em 1970, o primeiro livro sobre quadrinho editado no Brasil; sou autor de Cinema Pax, Docemente experimental, Um panfleto para Godard, Qualquer tudo, Continua na próxima e A biblioteca de Caicó. Sou co-autor de 69 poemas de Chico Doido de Caicó e Poética das águas. Há mais livros. Entre as minhas paixões, além das três mulheres citadas, figuram o cinema, a poesia, a literatura fantástica, os quadrinhos, o jazz, o choro, o samba, o frevo, o baião, a música clássica, o Fluminense e o socialismo.
(Moacy Cirne, a partir de texto publicado no Balaio 725, de 20 de abril de 1995)
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2:54 PM
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Domingo, Dezembro 12, 2004
EXPRESSÕES POPULARES REVISTAS PELO POEMA/PROCESSO
(Com a colaboração de Wlademir Dias Pino)
Quem com poesia concreta fere, com poema/processo será tingido.
O bom poema não quer pressa.
A pressa é inimiga do bom poema.
Quem faz três poemas num dia, no outro assobia.
Em terreiro de poeta, crítico não tem razão.
Mulher, poesia e cachaça, em toda parte se acha.
Quando se está com fome, até poema circunstancial se come.
Para bom entendendor, qualquer poema/processo basta.
De poesia ruim nem o diabo quer saber.
Palavra fria não escalda poesia.
Não se fala de poesia em casa de mau poeta.
Poesia com poesia se cria.
Poema quente, olhar fervente.
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2:13 PM
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Sábado, Dezembro 11, 2004
ALMANAQUE DO BALAIO Nº 7
Um disco: Clube da Esquina (1972), de Milton Nascimento & Lô Borges
Um clássico: Concertos de Brandemburgo (1721), de J.S. Bach
Um filme: Terra em transe (1967), de Glauber Rocha
Um quadrinho: Ferdinando (1934), de Al Capp
Um livro: Canto de muro (1959), de Luís da Câmara Cascudo
Uma livraria no Rio: Argumento (no Leblon)
Um artista: Di Cavalcanti (1897-1976)
Uma poeta potiguar: Myriam Coeli (1926-1982)
Um jogador de futebol: Guri (GDS, Caicó Esporte Clube)
Um caba porreta: Paco Cac (Rio), hoje em Brasília
Uma expressão nordestina: Bucho furado (= pessoa que não sabe guardar segredo)
Uma beleza feminina: Claudia Cardinale, em O belo Antônio (Bolognini, 1960)
Um blogue: Zumbi escutando blues, de Linaldo Guedes
Uma cidade: Jardim do Seridó (RN)
Um lugar no Rio: Parque do Flamengo /Aterro/, aos domingos
Uma cachaça: Claudionor (MG)
Uma curiosidade: Entre as expressões mais curiosas e/ou carinhosas que se referem ao sexo da mulher figuram aposentos privados, bilulina, butchaca, caverna do dragão, caverna dos mil prazeres, chavasca, dona-xoxota, engenho d'água, gulosa, jurupoca, laurinha, luluca, maria santa da boca aberta, natureza, nossa senhora dos mil pecados, pachuca, parque de diversões, perereca, priquito(a), perseguida, pexereca, pitoquinha, pixéu, quiquiriquinha, santa quentura, tapioca, vovó mafalda, xaninha, xibiu, xiboca, xiranha, xiruba, xota, xoxota, xulapa, xuleta, zezinha.
Uma citação: "O erotismo em O processo e O castelo é um erotismo sem amor, sem desejo e sem força, um erotismo de deserto, ao qual seria preciso escapar a qualquer preço" (Georges Bataille, in A literatura e o mal, 1957).
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11:34 AM
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Quinta-feira, Dezembro 09, 2004
"Em todas as épocas e em qualquer lugar as idéias da classe dominante são as idéias dominantes." (Marx)
ENTREATOS DO ESPETÁCULO
por LUIZ ROSEMBERG FILHO
e SINDOVAL AGUIAR
para César Benjamin
O mundo real de uma campanha excede a toda e qualquer representação. O puramente comum não chega a ameaçar nada. Então, ao se optar na p-o-l-í-t-i-c-a pelo lado espontâneo das idéias, dá-se imediatez ao frágil e ineficaz. Que o poder come e defeca, todos sabemos. Nós, os comuns, fazemos o mesmo. Mas e daí? Através da exploração do lado previsível e comum, junta-se o nada com qualquer coisa. E aí tudo serve para dar dimensões ao fronteiriço entre o lado bruto e conservador, e o impulso lúdico do candidato. Essa sustentação relaxada do nada, ao não romper com o real e suas contradições, dimensiona-o além da imagem numa alusão ao "sacrifício" de um Presidente içado de suas origens, e preparado ao acaso para impedi-lo de um passeio na praia com um amigo. Mas que amigo?
Qualquer sujeito é feito pelo simbólico, pela força social que o cerca. O que nos torna diferentes, sem enlouquecer, é caminhar com o pensamento ultrapassando obstáculos, mantendo-nos de pé. Quer dizer, ainda com a cabeça erguida e não aceitando que lhe imponham a inflexão. Lula é um presidente feito na mesma fôrma social: o da cultura, das religiões, do poder. Ele sempre sonhou fazer parte do pensamento e da ordem do poder e nunca teve a coragem de se revelar: nem para o povo, que se sustentou na sua venda da "esperança", nem para a esquerda, que sempre o ajudou. Bem, Entreatos é vendido e defendido como essência do lado "sério" do cinema documental. Deseja ser objeto de respeito e da seriedade numa frágil espécie de jornalismo duvidoso, ou oportunista. Incapaz de uma postura ousada e original, apropria-se do lado mais fácil das questões políticas de uma campanha presidencial transformando tudo e todos num reality-show disfarçado. Vê-se, na verdade, uma autêntica banalização de idéias comuns, onde Lula-Lá vivo é aproximado da tradição dos mitos. Sem alma própria, o poder usa e é usado por múltiplos e baixos interesses. Da economia à imagem tudo serve ao espetáculo de um circo antiqüíssimo: o da "nossa" politicagem de galinheiro. Não temos ainda um vampiro como Bush, mas já temos o nosso Forest Gump, versão tropical.
Frustrando assim uma rica possibilidade de internalizar e analisar os paradoxos de uma cômica e triste campanha presidencial no Brasil, Entreatos é o testemunho do conveniente amortecimento das idéias, sem contradição alguma. Contraprodutivo e desnecessário, esconde a vacuidade de um só projeto: o do poder pelo poder. O Presidente (ou ainda candidato), que não é bobo, dá asas a sua tagarelice, pois sabe que está sendo cultuado e defendido. E mesmo não dizendo nada substancial para que se possa entender os trágicos oito anos de FHC, ou mesmo o Brasil. Aliás, o país é o que menos interessa. O negócio são as viagens, as gravatas, os terninhos alinhados, o disse-me-disse dos amigos, a maquiagem e o show televisivo do carniceiro Duda Mendonça. Contudo, o candidato é a incubação de um mistério sem identidade, projeto governamental ou cor. O "filme" entra nesse barato de redescobrir a roda, circulando pela patética campanha para, no fundo, dar brilho e legitimidade à mexicanização de um novo-velho poder que se recusa a mudar. E que na sua opacidade interior de nada ter a dizer de original, emana conceitos risíveis de uma caligrafia cinematográfica primária.
Ou seja, produzir um candidato à presidência da república não é muito diferente da produção de um crente das inúmeras denominações religiosas; nem diferente da formação dos milhões de miseráveis prontos a serem exterminados, e a seguir a ordem do poder que os alimenta até o extermínio ou à cooptação, se pode ser melhor aproveitado. O simbólico é que irá definir e determinar a significação dessa criação na arena do espetáculo. Podendo ser simplesmente circense ou altamente sofisticado, variando os riscos e os lances do jogo. O importante é que todos participem; a democracia não exclui ninguém. Nem os exterminados. E o "filme" dá conta do recado servindo ao PT, como O triunfo da vontade serviu ao congresso Nacional-Socialista alemão de 1934. Pode até haver diferenças, mas... Lula é uma peça singular, fria, articulada e sem emoção profunda alguma. Evidentemente que sustentado com a substância do espetáculo. Nem o Fordismo e o Taylorismo produziriam peça tão acabada; porque o produzido pensa.
Seria então uma máquina inteligente? Uma fusão de Lula metalúrgico e de Lula presidente? Síntese de uma cultura democrática de acordos políticos, para que nada mude? Um operário significante e um presidente com outra significação, sem passado, sem tempo, sem história e sem memória? Um esquecimento delicado e grave? Na velha Grécia, um fora da cultura; sem a poesia e o cantar dos poetas, dos deuses e das musas. No Brasil, um perfeito protótipo da cultura, sem nada a negá-la. E o poder foi feito para ele. O "filme" sintetiza um olhar bajulador, uma idéia, uma certeza: a de que as nossas lideranças nascem sempre do mesmo ovo da serpente, da mesma gestação, há séculos. Serpente alimentada da cultura do poder e de vida eterna, sempre igual. Concepção simbólica de uma dialética publicitária de significação preventiva para a reeleição de um presidente.
Lula num aquário não é mais o velho militante que alimentou sonhos com esperança, mas a fita-cassete ou o DVD de amanhã. Até vemos que o "diretor" não interfere em nada, mas também não acrescenta nada ao espectador informado, ou não. Brinca-se, apenas, de fazer "imagens" com a baixa indústria da consciência, que acaba por justificar o nosso atraso teórico e prático em relação à velha nostalgia burguesa de estar sempre dentro ou ao lado do poder. Agora perguntamos: da marginalidade mostrada pela TV ao poder constituído não existem diferenças? É tudo a mesma coisa? No "filme" em questão a tal apropriação interna do poder só reproduz sem contradição alguma a harmonia entre o capital e a ideologia dominante. E a vendida arte cavalheiresca do realizador é apenas uma continuação da ordem política imposta e justificada. E o que na verdade interessa não é a política ou o cinema, e sim estar dentro e ao lado do poder -- obedecendo. Entreatos, ao não querer se posicionar (se posicionando), torna-se peça de propaganda enganosa. O uso externo do "filme" poderá muito bem servir à rejeição de Lula. Aliás, dois anos depois, no meio do mandato, já entrou servindo para isso. É fraco como cinema, e por isso mesmo servirá ao poder.
Claro que as personalidades políticas são vendidas como sérias e responsáveis. Como campanha pelo visto é enganação, tudo serve para empurrar seja lá o que for. E o que menos interessa é o humano, a identificação, a subjetividade ou a contradição. A mão única do poder é a mão única do filme, que serve ao arranjo cerimonioso da linguagem esvaziada de sentido. A miopia cinematográfica do realizador apenas dá dimensão ao puramente mistificador das idéias do poder. Filma-se então o triunfo do narcisismo conciliador de todos, onde a inversão do real é substituída por uma espécie de encantamento burguês capaz de suavizar contradições e subversões. O poder-mercadoria é nivelado pelo lado bom da fantasia como faz a publicidade com o papel higiênico ou o macarrão. E submergir Lula no final entre câmeras e microfones é o mesmo que exaltar no unanimismo a retumbante falta de idéias de todos, da política ao filme" em questão.
O realizador se acha mais esperto e chega a dizer que o atual Lula "administra miudezas", e não múltiplas arrogâncias que vão do capital financeiro aos meios de comunicação, passando por religiões de resultado, empresários, forças armadas, partidos, políticos, latifundiários e multinacionais. Na sociedade bárbara a que nos acostumamos, acompanhada dessas dificuldades do sobreviver, amesquinhou-se a liberdade, a cultura e o caráter simbólico formador social do indivíduo. Todos elogiam as sagradas porcarias do dia-a-dia. E quando não elogiam são incapazes de tocar no universo podre em que as coisas, as pessoas e as idéias estão geradas. Lula, o "filme", todos fazem parte desse universo feito de indivíduos e de um conjunto maior, a massa, o povo: a besta do apocalipse que se manifesta pela liderança de gente como Bush, Blair, Putin e Lula. Sem esquecer Hitler, né?
posted by MOACY CIRNE
9:21 AM
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Quarta-feira, Dezembro 08, 2004
TRÊS POEMAS
de CHICO DOIDO DE CAICÓ (1922-1991)
( * )
Minas Gerais gerais
De lugares comuns alterosos
Minas onde viveu Zé Bezerra Gomes
Escrevendo romances
Queimando versos
E trepando feito um doido
Minas, o povo de Minas,
Nunca vi um povo tão mineiro.
( ** )
Gosto de mulher de tudo que é jeito
Até das muito bonitas
Que não sabem foder muito bem
E até mesmo daquelas
Que nunca deram o xibiu
Para o meu consumo.
( *** )
Uma talagada de cana
Uma amizade bacana
Uma buceta sacana
Pra que mais?
Pra que mais?
Uma poesia carnuda
Uma palavra cabeluda
Uma jovem bucetuda
Pra que mais?
Pra que mais?
posted by MOACY CIRNE
1:08 PM
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Terça-feira, Dezembro 07, 2004
Os vascaínos que nos desculpem, mas
BOTAFOGO, FLAMENGO E FLUMINENSE
(também) SÃO FUNDAMENTAIS
Extraído de uma belíssima crônica do botafoguense
PAULO MENDES CAMPOS,
em O gol é necessário (Rio: Civilização Brasileira, 2000):
"Miguel Ângelo é botafogo, Leonardo é flamengo, Rafael é fluminense; Stendhal é botafogo, Balzac é flamengo, Flaubert é fluminense; Bach é botafogo, Beethoven é flamengo, Mozart é fluminense. Sem desfazer dos outros, é com eles que eu fico, Miguel, Henrique, João Sebastião. Dostoievski é botafogo, Tolstoi é flamengo (na literatura russa não há fluminense); Baudelaire é fluminense, Verlaine é flamengo, Rimbaud é botafogo; Camões não é vasco, é flamengo, Garret é fluminense, Fernando Pessoa é botafogo. Sim, Machado de Assis é fluminense, mas no fundo, debaixo da cepa cética, Machado, um bairrista, morava onde? Laranjeiras!"
[ Paulo Mendes Campos: O botafogo e eu ]
Um rápido comentário:
Provavelmente esta crônica foi escrita após a conquista do supersupercampeonato carioca pelo Vasco, em 1958; é possível que a cidade vivesse, então, algum tipo de euforia cruzmaltina. Afinal, até hoje, somente o Vasco (naquele 58) e o Fluminense (em 1946) conseguiram ser supersupercampeões do Rio. Daí a resposta literária de PMC. O que os nossos amigos acham? E, sobretudo, o que têm a dizer os vascaínos? De minha parte, como tricolor, discordo que Garret seja fluminense; Eça, sim, Eça tem a cara do Fluminense.
posted by MOACY CIRNE
5:17 PM
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Segunda-feira, Dezembro 06, 2004
POEMA/PROCESSO 1986
de Moacy Cirne
[ Projeto inaugural: 1986 ]
VERSÃO 2000:
ESTE POEMA é merda pura. Não, este poema não é merda pura.
Este poema é um soco no saco dos sacanas da Sibéria.
Não, este poema não é um soco no saco dos sacanas da Sibéria.
Este poema é um convite para uma viagem a Marte e São Saruê.
Não, este poema não é um convite para uma viagem a Marte e São Saruê.
Este poema é um grito contra os agiotas da grafia palavrosa.
Não, este poema não é um grito contra os agiotas da grafia palavrosa.
Este poema é um bangalafumenga qualquer qualquer qualquer.
Não, este poema não é um bangalafumenga qualquer qualquer qualquer.
Este poema é um sim, é um não, é um talvez.
Não, este poema não é um sim, não é um não, não é um talvez.
Este poema é um dedo, um dado, um dia do folheto do cordel.
Não, este poema não é um dia, um dado, um dedo do folheto de cordel.
Este poema é uma boa bosta.
Sim, sim, sim!
Este poema é uma boa bosta; de preferência, com farinha.
[ in Balaio Incomun 1337, de 1/11/2000 ]
Para ler sobre o poema/processo, clique aqui.
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12:34 PM
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Domingo, Dezembro 05, 2004
FEIRA DE ANOTAÇÕES
[*] Não me interessei por Entreatos, de João Moreira Sales, embora tenha gostado muito do seu Nelson Freire. Alguma coisa não me cheirou bem nesta proposta que envolve a campanha de Lula para presidente, em 2002: está me parecendo perfumaria barata, mesmo sem vê-lo. Aliás, ainda esta semana o Balaio publicará um artigo arrasador contra o filme, assinado por Luiz Rosemberg Filho e Sindoval Aguiar, artigo esse que todos os jornalões do país se recusaram a divulgar.
[*] Em compensação, gostei bastante de Peões, de Eduardo Coutinho: um trabalho honesto e decente. Algumas das entrevistas são ótimas e o final é maravilhoso. Coutinho é Coutinho: um cineasta sério, que merece todo o nosso respeito.
[*] Estou escrevendo um novo livro: 300 filmes imperdíveis - a cinemateca possível, a ser lançado pelas Edições Sebo Vermelho, de Natal. Os 80 filmes que considero as obras-primas inquestionáveis da cinematografia mundial, segundo a minha perspectiva poético-afetivo-libertária, que compõem o primeiro bloco das obras citadas, merecerão pequenos comentários de ordem crítica, em leitura bastante pessoal. Como em Cinema, cinema, de 2002, incluo um texto ficcional para ser roteirizado, se possível: A história.
[*] Nelson Pereira dos Santos, com uma equipe de alunos de Cinema da UFF, está gravando as cenas iniciais do seu novo documentário: sobre o nosso Balaio. Em 1992, Luiz Rosemberg Filho já fizera um vídeo sobre este zinepanfleto, naquela ocasião veiculado como mídia impressa: Agit-Prop.
[*] Pobre futebol carioca... Enquanto o meu Nense é o menos ruim, lutando por uma simples vaga na Sul-Americana, Flamengo, Botafogo e Vasco tentam desesperadamente fugir do rebaixamento. Já Atlético PR x São Caetano fizeram um jogão hoje.
posted by MOACY CIRNE
7:38 PM
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Sábado, Dezembro 04, 2004
ALMANAQUE DO BALAIO nº 6
Um disco: Brasileiro da gema (1996), de Beth Carvalho
Um clássico: A sagração da primavera (1913), de Igor Stravinsky
Um filme: Assuntina das Amérikas (1975), de Luís Rosemberg Filho
Um quadrinho: Zeferino & Graúna (1972), de Henfil
Um livro: Ficções (1944), de Jorge Luis Borges
Uma livraria no Rio: Prefácio (Rua Voluntários da Pátria, Botafogo)
Um artista: Hélio Oiticica (1937-1980)
Uma poeta potiguar: Iracema Macedo
Um caba porreta: Leon Góes (Rio, RJ), nascido em Natal
Um jogador de futebol: Zizinho (Flamengo, Bangu, São Paulo)
Uma expressão nordestina: Contar goga (= contar vantagem)
Uma beleza feminina: Fernanda Tavares, modelo potiguar
Um blogue: Ponto Gê, de Beth Almeida
Uma cidade: Cataguases (MG)
Um lugar no Rio: Largo do Guimarães, em Santa Teresa
Uma cachaça: Malhada Vermelha (RN)
Uma curiosidade: Segundo o cineasta alemão Rainer-Werner Fassbinder (1945-1982), os dez melhores filmes do cinema são: 1. Os deuses malditos (Visconti, 1969); A morte tem seu preço (Walsh, 1958); 3. Lola Montès (Ophuls, 1955); 4. Caminho da redenção (Curtiz, 1949); 5. Salò (Pasolini, 1975); 6. Os homens preferem as louras (Hawks, 1953); 7. Desonrada (Sternberg, 1931); 8. O mensageiro do diabo (Laughton, 1955); 9. Johhny Guitar (Ray, 1954); 10. Kalina Krasnaya (Shukshin, 1974). Sem dúvida, uma lista bastante curiosa e original [extraída do blogue O Anjo Exterminador, de Júnior].
Uma citação: "Qualquer sofrimento que não seja ao mesmo tempo conhecimento é inútil." (Cesare Pavese, in O ofício de viver /diário, 1939/)
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11:04 AM
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Quinta-feira, Dezembro 02, 2004
BALAIO PORRET@ 554
Rio, 3 de dezembro de 2004
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"A nossa arte é ser cegados pela verdade; só é verdadeira a luz sobre o rosto grotesco que recua, e nada mais"." (Franz Kafka)
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Memória
MEU PRIMEIRO POEMA
Publicado na Folha Estudantil, de Jardim do Seridó (RN),
no segundo semestre de 1962
P O E M A
de Moacy Cirne
Contrariando John Donne
sou
uma ilha deserta.
Será que os sinos dobrarão
por mim?
POEMA DE NEL MEIRELLES
girassóis
o amor apascenta
as pequenas
gotas de beijos
que descansam
nos teus olhos
( os girassóis quase sempre
sonham horizontes azuis )
[ in Fala Poetica ]
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Balaio produzido ao som de Quartetos n° 35, op. 42, n° 9, op. 2,
de Joseph Haydn, por Kodály Quartet [ Naxos, grav. 1992 ]
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Quarta-feira, Dezembro 01, 2004
Memória 1979
TESES SOBRE O MODO DE PRODUÇÃO DO POEMA/PROCESSO
Moacy Cirne
1. O poema/processo não é poesia.
Desde sua origem (1967), sabe-se que o estágio poético, característico da poesia tipográfica (poesia concreta, inclusive), não lhe é próprio como referência intersemiótica. A poesia, em sendo subjetiva, com toda a sua carga de emocionalidade (este filme é poético, aquele crepúsculo contém poesia etc.), não interessa ao projeto significante do poema/processo. Conter ou não poesia, em maior ou menor escala, é secundário para o discurso literário que se quer mais produtivo, mais conseqüente, mais trabalhado. A prática semiológica do poema/processo não leva em conta, portanto, a possibilidade (abstrata) da poesia: o poema/processo é o produto físico elaborado pelo poeta-artista.
2. O poema/processo não é para-literatura.
Os possíveis elementos semântico-literários deste ou daquele projeto particular do poema/processo não são suficientes para defini-lo como para-literatura. O próprio conceito de para-literatura (que marcaria a ficção científica, a novela policial, a literatura fantástica, as estórias em quadrinhos) é duvidoso. A rigor, não se trata de um conceito, no sentido teórico. Já o poema/processo, seja como projeto gráfico, seja como versão material, existe em um espaço significante alheio à literatura, à poesia e à para-literatura, admitindo-se a concretude textual da última. Seus produtos seriam, antes, (anti)literários, por extrapolarem, criticamente, os elementos literários contidos numa primeira instância.
3. O poema/processo exclui a informação estética.
O centro crítico e produtivo do poema/processo, em sendo semiológico, rejeita toda e qualquer estética, toda e qualquer poética. O poema/processo, pois, assumindo uma atitude política ao nível da linguagem, não poderia ser formalista. O projeto, desencadeador de novos poemas, suprime o formalismo que caracterizava as vanguardas anteriores. O que interessa é a informação: a linguagem a serviço da prática revolucionária.
4. O poema/processo redimensiona a informação semântica.
No espaço significante de sua prática, não mais a informação semântica como simples matriz de conteudismos ou realismos acadêmicos. No poema/processo a informação semântica existe a partir da leitura produzida pelo projeto: a versão, seja formal ou não, é um ato político semantizado pela leitura.
5. O poema/processo é experimental.
Ao trabalhar os signos concretos (gráficos, visuais, sonoros, ambientais etc.) da linguagem, o poema/processo o faz explorando as potencialidades físicas do material escolhido, assim como a grafia de suas possibilidades semióticas. Estas possibilidades são testadas experimentalmente, nos mais diversos níveis da produção. O poema/processo nasce de uma pesquisa aberta e múltipla em relação à linguagem: pesquisa que, através do projeto e da matriz, leva a novos poemas, a novas linguagens, a novos projetos. O poema/processo (que se relaciona dialeticamente com o poemário experimental brasileiro produzido a partir de 1973/74) nunca pretendeu ser uma vanguarda única e absoluta: pretendeu apenas atingir a informação nova (sem cair, bem entendido, nos vícios idealistas daqueles que sacralizam a teoria da informação) mediante os vários caminhos que passam pelo experimental.
6. O poema/processo critica a ideologia.
Embora situado ao nível da superestrutura, próximo às camadas ideológicas, o poema/processo, justamente por se inscrever nos quadros de uma produção semiológica, ativando leituras produtivas, é capaz de criticar (como pura metalinguagem) a ideologia. Em primeiro lugar, a ideologia literária imposta pelas classes dominantes; em segundo lugar, a ideologia das próprias classes dominantes. Não se quer dizer com isto que o poema/processo, fundador de atividades semiológicas, é científico. O poema/processo, apenas, tem consciência de seus limites e de suas funções artísticas no interior da sociedade.
7. O poema/processo é uma intervenção semiológica.
Como linguagem e metalinguagem, o poema/processo intervém crítica e produtivamente nos agentes formais e estruturais dos discursos artísticos e literários, enquanto reflexos dinâmicos da sociedade que os gerou. Por ser uma linguagem carregada de signos experimentais, que revelam o lugar social e (anti)literário de sua prática significante, o poema/processo é uma intervenção cultural nos discursos semiológicos e nas práticas textuais da arte, da literatura e da própria semiologia.
8. O poema/processo inscreve-se como produção cultural.
Hoje, o poema/processo, em sendo uma intervenção semiológica, realiza-se política e socialmente como produção cultural. Sua intervenção deve atingir, na teoria e na prática, os componentes mais danosos e conservadores da arte e da literatura. O poema/processo, queiramos ou não, é um problema literário. O poema/processo, queiramos ou não, é uma posição radical dentro da vanguarda brasileira.
9. O poema/processo dinamiza a relação produção/leitura.
A prática do poema/processo, em dez anos, mostrou o papel assumido pela leitura, seja a crítica, seja a produtiva. O poema/processo não se dirige a consumidores: dirige-se (para formar) a leitores, a partir do projeto ou da matriz. A relação obra/consumo transforma-se qualitativamente na relação produção/leitura. O primeiro termo (produção) existe, na prática, como produção semiológica e cultural; o segundo termo (leitura) existe como intervenção cultural e semiológica. A relação é dinamizada através de uma prática experimental, remetendo a novos poemas (opções criativas). Os novos poemas atestam a funcionalidade do(s) projeto(s) dado(s). O poema/processo não se restringe a este ou àquele vanguardismo particular. A própria idéia de uma vanguarda mais formal é questionada pela prática significante do poema/processo, prática esta que leva à produção e à leitura. Ao poema/processo só interessa a prática revolucionária, capaz de produzir uma leitura igualmente revolucionária: o poeta/processo, produtor de signos, é um operário da leitura, assim como (já nos dizia Álvaro de Sá) é um operário da linguagem.
[As presentes Teses foram publicadas originalmente em 11/12/1977, no suplemento Contexto do jornal A República, em Natal; republicadas em nosso livro A poesia e o poema do Rio Grande do Norte, edição de 1979, em Natal, pela Fundação José Augusto. Texto republicado, de igual modo, no blogue do Poema/Processo.]
posted by MOACY CIRNE
7:58 PM

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