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Poesia, humor, cinema & balaiadas

 
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Sexta-feira, Julho 30, 2004

 
LEITURAS NATALENSES (3)

FALVES, FALVES

Encerra-se hoje no Núcleo de Arte e Cultura da UFRN (no Centro de Convivência da Federal) a exposição Antologia poética, de Falves Silva, sob curadoria de Jota Medeiros. A respeito do trabalho experimental de FS, um dos artistas desencadeadores do poema/processo no Rio Grande do Norte, Jota Medeiros escreveu: "Da versão à intervenção e/ou interversão, neste percurso processual/conceitual, Falves trabalha a versão do poema operando releituras de textos visuais (...). A arte como ofício, o lixo/luxo gráfico - manipulando letras recortadas de revistas e/ou jornais, criando um metacódigo alfabético -, um verdadeiro sacerdócio, devir, fora da especulação do mercado". Em síntese: uma exposição imperdível.

OJUARA, OJUARA

Ao que tudo indica, o produtor Luís Carlos Barreto finalmente encontrou o diretor ideal para a adaptação cinematográfia de As pelejas de Ojuara, o romance picaresco de Nei Leandro de Castro: trata-se de Moacyr Góes. As filmagens serão realizadas no próximo ano, entre Caicó e outras cidades seridoenses. Desde já, é grande a expectativa. Depois de três experiências frustradas/frustrantes no cinema, MG poderá mostrar todo o seu talento como diretor/realizador de filmes. Registre-se: no teatro, um talento criador mais do que comprovado na cena do Rio de Janeiro.



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Quinta-feira, Julho 29, 2004

 
LEITURAS NATALENSES (2)

CASCUDO, CASCUDO

Crítico literário medíocre e historiador discutível, Luís da Câmara Cascudo -- por sua vasta obra em etnografia e cultura popular -- tornar-se-ia o maior escritor do Rio Grande do Norte, o nosso mais vibrante intelectual. E também o nosso maior "colecionador de crepúsculos".
Um livro como Prelúdio e fuga do real (1974), por exemplo, é uma obra ímpar, como ímpar também é Canto de muro (1959). Prelúdio e fuga, sem dúvida, é um livro raro, um dos mais raros de toda a literatura brasileira. Que o diga, entre outros, o agitador cultural Jomard Muniz de Brito, um dos grandes arautos da pernambucália nordestinada da segunda metade do século XX.
Ouso dizer, sem medo de ser exagerado: Prelúdio e fuga é um dos três melhores títulos da literatura potiguar. Seja por sua idéia organizacional, que o coloca dentro de um contexto de verdadeira atemporalidade; seja por sua estrutura, mais ficcional do que ensaística; seja pelo conhecimento de vários e vários autores mapeados no rigor da ótica cascudiana, estamos diante de uma obra maior. É possível dizer, com todas as letras: assim é Cascudo.
Ouso dizer, igualmente, ou melhor: paradoxalmente, sem medo de ser incoerente: Prelúdio e fuga é um dos três piores livros da literatura potiguar (considerando, aqui, apenas as obras dos autores norte-rio-grandenses mais destacados). Seja por sua erudição artificial, em vários momentos; seja por seu pedantismo intelectual, neste ou naquele capítulo; seja por sua escrita (des)organizacional, em algumas passagens, estamos diante de uma obra menor. É possível dizer, com todas as letras: Cascudo, às vezes, é assim, sendo um grande Escritor.
Porque Cascudo é Cascudo: quase sempre brilhante, quase sempre envolvente, quase sempre marcado pela mais pura escrevivência, recordando o poeta carioca José Lino Grunewald e o já citado Jomard Muniz de Brito. Afinal, somente Cascudo poderia ser muito bom e muito ruim, ao mesmo tempo, numa determinada obra, sem perder jamais a ternura como "colecionador de emoções".



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Terça-feira, Julho 27, 2004

 
LEITURAS NATALENSES (1)

Ao ler a Tribuna do Norte de domingo passado, encontrei na página Quadrantes a seguinte "preciosidade crítica" do poeta Carlos de Souza:

"Finalmente criei coragem para assistir ao badalado filme Dogville, de Lars Van Triers. Os cinéfilos-cabeça que me perdoem, mas não consegui passar dos 10 minutos. Aquilo pode ser tudo, vanguarda, experimentalismo, teatro na tela, etc. Mas cinema não é".

O Sr. Carlos de Souza que me desculpe: ele pode ser tudo, até mesmo um poeta de quinta categoria, mas crítico de cinema ele não é, nem aqui, nem na China, nem no Japão. Se ele entende de cinema, eu entendo de física quântica... Aliás, omitir opinião sobre Dogville tendo visto apenas 10 minutos é o mesmo que omitir opinião sobre Finnegans wake sem ter lido uma linha sequer da obra mais polêmica de Joyce. Decerto, ele tem todo o direito de não gostar do filme de Trier, assim como tem o direito de ser uma nulidade crítica em matéria de linguagem cinematográfica, mas fica difícil para os leitores da TN aturar a burrice de alguém que omite um parecer vendo apenas os 10 minutos iniciais de uma obra de final impactante e que tem quase três horas de projeção.
Ainda bem que há bons nomes na imprensa natalense. Assim como há bons poetas e bons ficcinonistas no Rio Grande do Norte. Ou seja, os próximos dias podem ser bastante proveitosos em se tratando de leituras potiguares.



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Segunda-feira, Julho 26, 2004

 
CAICÓ, CURRAIS NOVOS, NATAL

Primeiramente, Caicó, em clima de Festa de Sant'Ana: a cidade respirando alegria por todas as ruas, praças e ruelas. Vi gente que não via desde 1959, ou antes: é o caso de Celso Dantas, o Celsito. Há que destacar também o reencontro com Zezé, que hoje mora em Brasília. E o reencontro com Oberdan Damásio e sua mulher Karla: papos maravilhosos. E com Zé Avelino, pintor, que já morou no Rio e em São Paulo, além de Natal. Ou o reencontro com Gildo, e as nossas lembranças de futebol-de-botão. Aquele gol espírita que o seu Flamengo fez no meu Fluminense não fugiu à memória dos dois. Depois o lançamento do livro em pleno sobrado do Pe. Brito Guerra, construído em 1810-11: A invenção de Caicó. No dia seguinte, a Festa do Ex-Aluno do GDS: mais reencontros, mais papos, mais alegria.
Depois, voltando para Natal, ontem, uma parada obrigatória em Currais Novos para conhecer os blogueiros Théo G. Alves e Wescley J. Gama, além da poeta Luma Carvalho. Infelizmente, o encontro só durou uma hora, ou um pouco mais: um belo encontro, já que me pareceram figuras humanas extraordinárias, ou quase (incluindo, aqui, a presença da mulher de Théo: Sirlane), além de poetas e criadores que começam a se destacar no cenário norte-rio-grandense das letras e das artes. O mais interessante: Caicó e Currais Novos não só fazem parte da mesma região (o Seridó), como são abençoadas pela mesma padroeira: Nossa Senhora de Sant'Ana. Ou seja, Currais Novos também vive em clima de festa (que, no seu caso, acaba hoje, enquanto a de Caicó termina no próximo domingo).
No início da noite, chegamos em Natal: eu, minha mulher (Fátima) e meu irmão (Milton). Ainda deu pra ver os últimos minutos de Brasil x Argentina. Nas próximas duas semanas, Natal será o centro do nosso Balaio; e já me preparo para o lançamento do livro de Iracema Macedo (Invenção de Eurídice) no dia 4 de agosto. Antes disso, reverei com mais atenção a exposição de Falves Silva no Centro de Convivência da UFRN, já que a vi muito ligeiramente antes da viagem para Caicó.



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Quarta-feira, Julho 21, 2004

 
NOTA DO BALAIO

Nos próximos 16/17 dias este blogue será atualizado diretamente de Natal de forma irregular.
Aliás, a próxima postagem só se dará por volta do dia 26. Ou 27. Tudo de bom para todos. E até breve.



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Terça-feira, Julho 20, 2004

 
RECOMEÇO
Poema de Moacy Cirne

Sei do sonho:
procuro tua sombra na
penumbra
da memória líquida
e nada encontro.
A lua não é vermelha
não é violeta
não é verdecoisa
mas
os loucos da madrugada
anunciam as primeiras águas da manhã.
Sei do sonho?
Tua sombra pagã
é um corpo que me foge
das mãos cansadas de espantos
e abismos.
A árvore sonolenta
anoitece os meus delírios.
Não te vejo na claridade
do silêncio.
O sol é um pássaro ferido
na solidão
de meus gestos de meus gritos
e a hora cruviana
é uma graviola
grávida
de aromas e carnes
pronta para ser saboreada.
Sei.
Não foi um sonho.
Como encontrar,
então,
na arquitetura fluvial
de meus quereres,
as linhas
e curvas
de teu corpo barrento-canela?
Ah, não! Ah, sim!
Existe
um
grande sertão
nas veredas da minha paixão.
E eu sei do sonho.
Procuro tua sombra líquida
e nada encontro.
A lua não é verdeluã
mas
tua sombra pagã
anoitece os meus delírios.
Como encontrar,
sol e solidão,
a arquitetura colonial
de teu corpo fluvial?
Como encontrar,
no silêncio de meus gritos,
tua sombra teus aromas tuas carnes?
Sim,
não.
Tua memória vermelha
é uma sombra grávida
de morenezas e reentrâncias
azuis.
Docemente azuis.
Barrentas e azuis.

[ in Qualquer tudo (1993) ]

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ALGUMAS OBRAS-PRIMAS
DO JAZZ


· Reminiscing in tempo, de Duke Ellington [Columbia/Legacy, 1928-60]
· Black, brown & beige, de Duke Ellington [RCA Bluebird, 1944-46]
· Money jungle, de Duke Ellington, Charles Mingus e Max Roach [Blue Note, 1962]
· Hot Fives and Sevens, v.1-4, de Louis Armstrong, [JSP, 1925-31]
· The essential Count Basie, v.1, de Count Basie [Columbia, 1936-39]
· The legendary Sidney Bechet, de Sidney Bechet [RCA Bluebird, 1932-41]
· Free for all, de Art Blakey [Blue Note, 1964]
· Escalator over the Hill, de Carla Bley [JCOA, 1968-71]
· The complete Paris Sessions, v.1-3, de Clifford Brown [Vogue, 1953]
· Time out, de Dave Brubeck [Columbia, 1959]
· Free Jazz, de Ornette Coleman [Atlantic, 1960]
· Soultrane, de John Coltrane [Prestige, 1958]
Há muito mais nomes, há muitos mais títulos, evidentemente.
Serão lembrados em outra ocasião.

FEIRA DE CITAÇÕES ESPORRENTAS

[] Só conheço um afrodisíaco -- a mulher. (Millôr Fernandes)
[] O Ministério da Saúde adverte: conservadorismo e puritanismo provocam câncer. (Balaio 985)
[] O homem é um deus quando sonha e não passa de um mendigo quando pensa (Hölderlin)
[] A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana. (Barão de Itararé)
[] O sonho é o pensamento em férias. (Murilo Mendes)
[] Seja um viciado em amor. Não há nenhuma contra-indicação do Ministério da Saúde. (Dailor Varela)
[] Deus é Foda. (Boêmio da Lapa)
[] Prefiro o paraíso pelo clima, e o inferno pela companhia. (Marx Twain)



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Segunda-feira, Julho 19, 2004

 
Memória 1967
POEMA/PROCESSO
de NEI LEANDRO DE CASTRO (RN)

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Repeteco
DEFINIÇÕES INDEFINÍVEIS
[in Balaio Incomun 1288, 6/6/2000]

· [] Materialismo histórico é a ciência que estuda os materiais orgânicos da história do Egito Antigo.
· [] Computação é a relação afetiva que se estabelece entre as putas da Mesopotâmia e as comadres da Sicília.
· [] Cibernética é o ato sexual que se dá no mês de abril entre um peixe-espada da Sibéria e as tartarugas do Alto Amazonas.
· [] Teoria da Comunicação é a teoria inventada por Napoleão Bonaparte quando ele, sonolento, invadiu a Grécia Clássica; não sabendo falar aramaico, nem tampouco japonês greco-medieval, NB criou, então, a famosa Teoria, que, na prática, foi aprovada pelos viajantes assírios que, em 1314, descobriram o Polo Norte e a Abissínia.
· [] Complexo de Édipo é a raiz quadrada do pó notificado por editais plenos de leitura bastante complexa. Foi um matemático -- o grande Luiz Vaz de Camões -- que, ao formular o teorema de Édipo, criou as bases líquidas da Física contemporânea.

POEMA DE LUIZ CARLOS GUIMARÃES (RN)

Água-forte

Amanhece.
A louca caminha
no meio da rua.
Os braços abertos.
Os olhos nas mãos.
A voz baixa
como se estivesse rezando.
Sozinha contra a cidade adormecida.



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Domingo, Julho 18, 2004

 
FILMES IMPERDÍVEIS: Clique aqui para ver a nossa seleção de grandes obras da história do cinema. Ao todo, são 348 títulos, entre filmes marcantes, excelentes, ótimos e especialmente bons, segundo a perspectiva crítico-poético-afetiva adotada por nós.

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Humor involuntário
AS REGRAS DO SEXO NOS ESTADOS UNIDOS

A revista Istoé que se encontra nas bancas publicou uma curiosa e engraçada matéria sobre As absurdas regras do sexo no país de W.C. Bushit, o maior e mais completo escrotonojentofeladaputosobostaico do mundo, hoje. Vale a pena conferir três delas, dignas da babaquice americana, recorrendo ao próprio semanário paulistano:

[] Em Nevada, "É ilegal a qualquer membro da legislatura conduzir negócios oficiais fantasiado de pênis, quando o Legislativo estiver em sessão", segundo a Lei. Mas, conforme a Istoé, "Não explica ... se o ilustre representante público pode ostentar o traje viril caso o plenário esteja em recesso".

[] Em Minnesota, por exemplo, "está totalmente proibido a um homem manter relações sexuais com um peixe vivo. No Brasil, o povão teria apelidado de Lei JK, em homenagem ao ex-presidente Juscelino Kubitschek e sua canção predileta. A lei, porém, é omissa no trato de peixes mortos".

[] Em Nova York, a sodomia não é proibida: "É perfeitamente legal até mesmo o chamado fist sex -- o ato de introduzir toda a mão ou braço no esfíncter de alguém. A exigência que se faz é que o consentimento para a perfomance seja dado na frente de testemunhas ou em documento autenticado por notário. Imagina-se que os possuidores de sangue frio suficiente para se engajar numa manobra sexual destas não terão constrangimento em levar mais dois dedinhos de prosa no cartório para oficializar o contrato".



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Sábado, Julho 17, 2004

 
BALAIO PORRET@ 517
Rio, 17 de julho de 2004
Total de assinantes: 604


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"Os detalhes são sempre vulgares." (Oscar Wilde)
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SUSPENSÃO TEMPORÁRIA

Estamos suspendendo, temporariamente, a produção e panfletagem eletrônica do nosso Balaio Porret@, que voltará a ser feito normalmente no mês de setembro. Uma viagem (ainda esta semana) para o Rio Grande do Norte, quando lançaremos A invenção de Caicó, é o motivo maior de nossa decisão. Enquanto isso, o blogue Balaio Vermelho continuará sendo editado, na medida do possível. Ou seja, a sua atualização, durante algum tempo (três ou quatro semanas), deixará de ser diária.


INVENÇÃO DE EURÍDICE: DUPLO LANÇAMENTO

A Editora da Palavra está convidando para o lançamento da obra
Invenção de Eurídice, da potiguar Iracema Macedo (hoje residindo em Ouro Preto, MG), no dia 24 de julho, no Museu da República (Rio), a partir de 18h. No dia 4 de agosto, a seguir, quem convida para o lançamento é a AS Livros, da capital norte-rio-grandense, ao lado do Xópim Natal, quando a poeta, no começo da noite, estará autografando o seu novo livro. O mineiro Affonso Romano de Sant'Anna assim se xpressou a respeito dele, na introdução: "Este livro é notícia de uma travessia existencial, amorosa. Adotando uma linha órfica e reunindo suas fontes nordestinas, solares e dionisíacas, às vivências mineiras, lunares e órficas, aqui está o dilaceramento lírico, sem o qual a poesia não se derrama nem se condensa".


AUTOBIOGRAFIA COM FARINHA E RAPADURA

Segundo o horóscopo chinês, sou caba da peste, parente de Lampião e Maria Bonita: nasci em São José da Jardinense Bonita, ao lado de Caicó, Campina Grande, Olinda, Currais Novos, Galinhos e Martins, antes do descobrimento da Terra de Santa Cruz, pelo poeta Bocage, companheiro de Manuel Bandeira nos cabarés da velha Ribeira, em Natal, capital potengíaca. Compadre de vários gentios tapuias, lutei contra os bandeirantes do Sul Maravilha que nos invadiram em 1600 e lá vai fumaça. Mergulhei no Poço de Santana e fui sair no Rio Amazonas, entre uma talagada e outra de Malhada Vermelha, a cachaça preferida de Celso Japiassu, Nei Leandro e Luís da Câmara Cascudo. Conheci Marte, Júpiter e São Saruê nos anos 10 do século passado. Escrevi Os lusíadas, falsamente atribuído a um tal de Luiz Vaz de Camões, em apenas 10 dias e 10 noites. Depois, tornei-me pescador de auroras azuis e palavras seridolentes. Hoje, pai de duas filhas e casado com uma natalense, não sou amigo do rei, mas sou amigo de muita gente boa.

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Balaio produzido ao som de Música Popular do Nordeste,
de vários autores [ Discos Marcus Pereira ]
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Sexta-feira, Julho 16, 2004

 
UM POEMA VISUAL É UM POEMA VISUAL É UM POEMA VISUAL É UM POEMA

] ] ] ] # Mais poemas gráficos e visuais no blogue do Poema/Processo # [ [ [ [

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BALAIO PORRET@ 516
Rio, 16 de julho de 2004
Total de assinantes: 605


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"Caicó não é uma cidade, Caicó é uma pátria." (François Silvestre)
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POEMA DE NEL MEIRELLES

evidências

escrevo
logo
vivo

brilho
logo
estrelas

amo
logo
existes

[ in Fala Poética ]


A INVENÇÃO DE CAICÓ

No próximo dia 23, estarei no coração do Seridó potiguar para lançar, em plena Festa de Sant'Anna, A invenção de Caicó (Natal: Sebo Vermelho, 2004, 240p.). Confesso: um livro que me deu enorme prazer. Em função dele, fiz leituras e pesquisas saborosas. E duas viagens emocionantes à cidade dos poetas Moysés Sesyom, Chico Doido e Abner de Brito. Em função dele, renasci para o Sertão. Para completar, o lançamento (depois da novena na Matriz) será no Sobrado do Padre Brito Guerra, construído em 1810-11, praticamente ao lado do Poço de Santana.

A prosa impúrpura do Caicó
Letra de Chico César
no disco Aos vivos

ah! caicó
arcaico
em meu peito catolaico
tudo é descrença e fé
ah! caicó
arcaico
meu cashcouer mallarmaico
tudo rejeita e quer
é com é sem
milhão e vintém
todo mundo e ninguém
pé de xique-xique
pé de flor
relabucho velório
videogame oratório
high-cult simplório
amor sem fim desamor
sexo no-iê
oxente oh! shit
cego aderaldo olhando pra mim
monnwalkman


ENCONTRO DE BLOGUEIROS AMANHÃ, NO RIO

Por iniciativa do agrestino Manoel Carlos Pinheiro, acontecerá amanhã no Rio um encontro de blogueiros. A seguir, a nota publicada pelo próprio Manoel Carlos em seu ótimo blogue:

Todas as providências já foram tomadas.
Com sol ou chuva, com ou sem vento.
Temos diversas opções no mesmo local.


Círculo Militar da Praia Vermelha
Praça General Tibúrcio S/N - Urca
Ao lado do IME - Instituto Militar de Engenharia, o qual fica ao lado o bondinho do Pão de Açúcar.
Início às 16 horas.
Dia 17 de julho.


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Balaio produzido ao som de Aos vivos,
Chico César [ Velas, 1995 ]
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Quinta-feira, Julho 15, 2004

 
LIVROS QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 AURORAS EM SÃO SARUÊ


Em setembro, quando estaremos completando 18 anos de Balaio Incomun, o nosso Balaio Vermelho começará a editar uma nova série: Livros que levaríamos para uma temporada de 66 auroras em São Saruê, sem ordem preferencial, considerando apenas edições brasileiras e portuguesas, sejam de autores brasileiros ou lusitanos e africanos, sejam de autores estrangeiros, devidamente traduzidos. Como no caso dos filmes, não se trata de uma seleção das melhores obras (literárias) segundo a nossa perspectiva crítico-afetiva, mas de uma seleção que implica leitura prazerosa, quer ficcional, quer poética, quer ensaística, num lugar paradisíaco do porte da imaginária São Saruê.



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Quarta-feira, Julho 14, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
66 / 66: O império dos sentidos (Japão/França, 1976),
de Nagisa Oshima
Resumo do argumento: Em 1936, no Japão, a prostituta (ou ex-gueisha, melhor dizendo) Sada apaixona-se de forma obsessiva por Kichizo, proprietário de restaurante. O casal inicia então uma relação sexual que procura ir às últimas conseqüências eróticas e morais, na busca frenética do êxtase total e absoluto. No clímax, Kichizo permite que Sada o estrangule. Com o órgão sexual do amado numa bolsa, depois de extirpá-lo, Sada vagueia pelas ruas da cidade, em aparente estado de felicidade etérea.
Elenco: Eiko Matsuda, Tatsuya Fuji, Aoi Nakajima, Taiji Tonoyama
Roteiro: Nagisa Oshima
Fotografia: Keniche Okamoto
Trilha Sonora: Minoru Miki
Avaliação estética: Um dos filmes mais perturbadores dos anos 70; ousado e original, baseado em história real. "O mais insolente filme já realizado sobre a obsessão erótica" (Serge Toubiana). "O filme é descrição minuciosa, insuportável e fascinante [de um] ritual de posse, no cenário sempre parecido e renovado de sufocantes quartos de hotel" (Emile Breton). Para melhor compreensão do filme, recomenda-se a leitura do livro O erotismo, de Georges Bataille. Em tempo: não se trata de um livro sobre cinema e menos ainda sobre Oshima.
Nota do Balaio: Apesar de nossas inúmeras tentativas, não foi possível "captar" nenhuma imagem (cartaz ou foto) do filme, embora muitas estejam postadas em vários sítios de cinema, inclusive nacional.



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AS PREOCUPAÇÕES METAFÍSICAS
DO BALAIO:


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BALAIO PORRET@ 515
Extra
Rio, 14 de julho de 2004
Total de assinantes: 607



DE BÊBADO NÃO TEM DONO
por MARCELO BATALHA
[ in Cinzas de Batalha ]

Às vezes é dificil achar uma notícia nos portais dos jornais. Li essa na edição impressa e "ralei" para achar na edição on-line. Mas, num país onde a legislação é muitas vezes um caso para psicólogos, é interessante o suficiente para merecer o post.

Segundo a justiça de Goiás, até as orgias devem possuir regras. O Globo On Line traz matéria sobre uma sentença "insólita e inédita", segundo a autora da nota, Carolina Brígido. O Tribunal de Justiça de Goiás decidiu que o homem que, por vontade própria, participar de uma sessão de sexo grupal e, em decorrência disso, for alvo de sexo passivo, não pode declarar-se vítima de crime de atentado violento ao pudor.

A origem da história: segundo a matéria, Luziano Costa da Silva acusou o amigo José Roberto de Oliveira de ter praticado contra ele "ato libidinoso diverso da conjunção carnal" (o que pode ser traduzido "no popular" em palavras de cinco ou quatro letras, ao gosto do leitor).

Silva alegou que, como estava bêbado, não pôde se defender. Por meio do Ministério Público, recorreu à Justiça. Mas o tribunal concluiu que não há crime, já que a suposta vítima teria concordado em fazer sexo grupal.

O acórdão dos desembargadores é categórico:

"A prática de sexo grupal é ato que agride a moral e os bons costumes minimamente civilizados. Se o indivíduo, de forma voluntária e espontânea, participa de orgia promovida por amigos seus, não pode ao final do contubérnio dizer-se vítima de atentado violento ao pudor. Quem procura satisfazer a volúpia sua ou de outrem, aderindo ao desregramento de um bacanal, submete-se conscientemente a desempenhar o papel de sujeito ativo ou passivo, tal é a inexistência de moralidade e recto neste tipo de confraternização".

Deu pra entender ? Claro que sim, senão remeta-se ao título deste post.

Contubérnio é ótimo, vai a descrição do Aurélio para quem boiou:

Contubérnio [Do latim contuberniu] S. m. 1. Vida em comum; familiaridade. 2. Convivência, camaradagem. 3. Mancebia (1), amigação: "Revoltava-se contra a raivação danada que a bestializava, vituperando, com ódio frenético, quantos apanhava em contubérnios ou conchavos concupiscentes." (Coelho Neto, Rei Negro, p.34)

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POEMA DE BETH ALMEIDA
in Ponto Gê

Terapia no albergue

Eu, que estou cá dentro, mas só queria estar lá fora
Eu, que estou no fundo, mas só queria estar no raso
Eu, que sou o nascer, mas só queria o entardecer
Eu, que sou elástica, mas só queria ser adequada
Eu que sou o domínio, mas só queria a situação
Eu, que ainda sou verde, mas só queria ser vermeil
Eu, que sou vertical, mas só queria estar na horizontal
Eu, que sou acelerada, mas só queria ser insubordinada
Eu, que ultrapasso, mas só queria o compasso
Eu, que sou ácida, mas só queria ser metálica
Eu, que sou finita, mas só queria ser metáfora
Eu, que sou privilegiada, mas só queria ser atávica
Eu, que sou iluminada, mas só queria ser difusa
Eu, que sou abstrata, mas só queria ser surreal
Eu, que sou de improvisos, mas só queria ter insights
Eu, que ando em ebulição, sou muito, sou um albergue.
São tantas personas nesse espaço deserto...
Embora eu quisesse tudo, tudo me faltou.
Que morram as intenções!...

[ Veja a arte de Beth Almeida no blogue do Poema/Processo ]


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BALAIO PORRET@ 514
Rio, 14 de julho de 2004
Total de assinantes: 607


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"A juventude é uma conquista da maturidade." (Jean Cocteau)
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ANIMA PUBLICITARIUS MUNDI
por FERNANDO PAIVA
[ in Máquina de Escrever ]

A edição deste ano do Anima Mundi, maior festival de animação do Brasil e um dos mais importantes do mundo, aceitou a inscrição de comerciais de TV em sua mostra competitiva de curtas metragens. As centenas de animações são divididas em programas, exibidos em diversas salas de cinema do Rio de Janeiro. Cada programa tem aproximadamente 1 hora de duração e contém cerca de 10 curtas, dentre os quais há quase sempre pelo menos um comercial de TV. Nos três programas que assisti, fui obrigado a ver (e, em alguns casos, a rever!) anúncios da Microsoft, HP, Sul América Seguros, Luftal e Rede Brasil.

O que o Anima Mundi ganhou com isso? Será que as empresas pagaram por essa propaganda ou seus comerciais foram considerados pela organização como outros trabalhos inscritos quaisquer? Não sei. Só sei o que o festival perdeu: a minha admiração. Reconheço que alguns desses anúncios contêm interessantes técnicas de animação, são até bonitos e criativos. Mas aceitá-los no festival é alçá-los à condição de arte. E, no meu entender, uma animação feita sob a encomenda de uma diretoria de marketing de uma empresa com o objetivo de vender um produto ou serviço não é arte. É um anúncio.

Os outros curtas de animação podem ser até mais toscos, mas contêm algo que um anúncio nunca terá: paixão. São obras de arte. E não deveriam ser comparados com comerciais de TV, a não ser que o único parâmetro em questão fosse a técnica.

É claro que o Anima Mundi aborda e debate técnicas de animação. Porém, antes de mais nada, é um festival de arte em animação. E ainda que fosse um evento que priorizasse exclusivamente a técnica, acredito que seria eticamente questionável a inclusão de comerciais de TV.

Uma das características mais belas do Anima Mundi, na minha opinião, é o fato de trazer para o grande público trabalhos de animação que jamais chegariam até nós por outras vias. Trata-se, na sua maioria, de filmes amadores, feitos em casa ou em pequenas produtoras, que não encontram espaço facilmente nas emissoras de TV e nas telas de cinema. Pergunto-me quantos desses curtas metragens verdadeiramente artísticos foram preteridos pela comissão julgadora para a entrada de comerciais? Já não basta o espaço que esses anúncios tiveram na TV? A revolta é ainda maior se lembrarmos que os comerciais aparecem na TV porque as empresas pagam pelo espaço publicitário, enquanto que para vermos esses mesmos anúncios na tela do cinema em um conceituado festival de animação quem paga somos nós consumidores.

Nota do Balaio:

Também ficamos putos da vida quando, no Odeon, sábado passado, fomos obrigados a ver um videoclip de um disco de cantor vagabundo. Verdadeiro desrespeito para aqueles que pagaram ingresso pensando que o Anima Mundi era uma coisa séria. Ainda bem que, depois, alguns curtas valeram a pena, mas desde já concedemos um ESCROTÉU DE MERDA para os organizadores que incluíram esses comerciais na programação.

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Balaio produzido ao som de Choro em família,
de Déo Rian e Bruno Rian [ DRBR, 1996 ]
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Terça-feira, Julho 13, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
65 / 66: O sol por testemunha (França, 1959),
de René Clément

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O MELHOR DAS HISTÓRIAS-EM-QUADRINHOS

1. The Spirit (Eisner, USA, 1940)
2. Little Nemo (McCay, USA, 1905)
3. Krazy Kat (Herriman, USA, 1911)
4. Corto Maltese (Pratt, Itália, 1967)
5. Valentina (Crepax, Itália, 1965)
6. Sin City (Miller, USA, 1991)
7. Ken Parker (Berardi & Milazzo, Itália, 1977)
8. Zeferino & Graúna (Henfil, Brasil, 1972)
9. Philémon (Fred, França, 1966)
10. Fritz the Cat (Crumb, USA, 1967)
11. Ferdinando (Capp, USA, 1934)
12. Sandman (Gaiman & outros, USA, 1988)
13. Pererê (Ziraldo, Brasil, 1959)
14. Paulette (Wolinski & Pichard, França, 1970)
15. Flash Gordon (Raymond, USA, 1934)
16. Tarzan (Hogarth, USA, 1937)
17. Mafalda (Quino, Argentina, 1964)
18. Lobo Solitário (Koike & Kojima, Japão, 1969)
19. Mort Cinder (Oesterheld & Breccia, Argentina, 1962)
20. Fradinhos (Henfil, Brasil, 1964)
21. Cocco Bill (Jacovitti, Itália, 1957)
22. Feiffer (Feiffer, USA, 1956)
23. Hit Parade (Wolinski, França, 1967)
24. Freak Brothers (Shelton, USA, 1967)
25. Pogo (Kelly, USA, 1941)
26. Príncipe Valente (Foster, USA, 1937)
27. Fantasma (Falk & Moore, USA, 1936)
28. Urbanóides (Lapi, Brasil, 1972)
29. Steve Canyon (Caniff, USA, 1947)
30. Dick Tracy (Gould, USA, 1931)
31. Peanuts/Charlie Brown (Schulz, USA, 1950)
32. Homem-Aranha (Lee & Ditko, USA, 1962)
33. Tarzan (Foster, USA, 1929)
34. The Kind-Der-Kids (Feininger, USA, 1907)
35. Tintin (Hergé, Bélgica, 1929)
36. Mandrake (Falk & Davis, USA, 1934)
37. Brucutu (Hamlin, USA, 1933)
38. Bronco Peeler (Harman, USA, 1933)
39. Pafúncio e Marocas (McManus, USA, 1913)
40. Gato Félix (Messmer, USA, 1923)
41. Jeff Hawke (Patterson & Jordan, Inglaterra, 1954)
42. Astérix (Goscinny & Uderzo, França, 1959)
43. O Mago de Id (Hart & Parker, USA, 1964)
44. Barbarella (Forest, França, 1962)
45. Zé do Boné (Smythe, Inglaterra, 1957)
46. Tenente Blueberry (Charlier & Giraud, França, 1963)
47. Mr. Natural (Crumb, USA, 1967)
48. Ranxerox (Tamburini & Liberatore, Itália, 1978)
49. Mickey (Disney & Iwerks, USA, 1930)
50. Akira (Otomo, Japão, 1982)
51. Lucky Luke (Morris, Bélgica, 1946)
52. Terry e os piratas (Caniff, USA, 1931)
53. Calvin (Waterson, USA, 1985)
54. Druuna (Serpieri, França, 1985)
55. Jim das Selvas (Raymond, USA, 1934)
56. Lamparina (J. Carlos, Brasil, 1928)

Nota:
Em outra ocasião, registraremos os álbuns com aventuras isoladas e/ou novelas gráficas do mundo dos quadrinhos, já que são muitos os títulos de alto nível, como, por exemplo, Lanterna mágica (Crepax), Bloodstar (Corben), Arzach (Moebius), Saga de Xam (Rollin & Devil), Viagem a Tulum (Fellini & Manara), Jodelle (Bartier & Pellaert), Batman: O cavaleiro das trevas (Miller), e assim por diante.



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Segunda-feira, Julho 12, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
64 / 66: Lola Montès (França/Alemanha, 1955),
de Max Ophüls

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BALAIO PORRET@ 513
Rio, 12 de julho de 2004
Total de assinantes: 605


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"Mucho se ha escrito sobre el Canto general [de Neruda], pero su sentido más hondo escapa a la crítica textual, a toda reducción sólo centrada en la expresión poética. Esa obra inmensa es una monstruosidad anacrónica (...), y por ello una prueba de que América Latina no solamente está fuera del tiempo histórico europeo sino que tiene el perfecto derecho y, lo que es más, la penetrante obligación de estarlo."
(Julio Cortázar)
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PABLO NERUDA/1965

Nei Leandro de Castro

No Chile, pétreo território de amor,
grande e solitário permaneces
e vinte vezes e mais uma gritas o amor estilhaçado.
De onde te plantaste, horizontalizas as alturas
e tornas vertical o homem:
seu amor, a solidão perpendicular
e a sua morte redonda.
Dos Andes, o teu canto desce a cântaros
pelas terras amaras, rio de húmus, rio inflamado,
lava incandescente sobre o riso dos tiranos.
Geral, saúdas os teus rotos generais,
emprestas-lhes as ferramentas de um sonho de cobre
surpreendido, roubado, entre os muros
que ergueram no coração mineral da pátria.
Teus elementos te circundam como um anel de noivado.
Te eternizas no mais simples e o eternizas:
o pão, o vinho, a cebola, o tomate, tua mesa posta.
Caminhas sobre as pedras humanas do teu canto,
auscultas o coração marinho dessas pedras,
o seu uivo exilado, para nos dar a dimensão
do país que pulsa há sessenta anos em ti:
infinito como o coração de olvido de tuas pedras.
No Chile, grande e solitário permaneces.
No mar chileno, para onde sempre regressas,
uma âncora não mais te prende ao porto:
levaram-na os que sofrem,
os que amam, os que se desesperam,
os torturados, os caídos a bala e a baioneta,
para que o teu canto, nave à deriva,
funde em cada porto a liberdade.

[ in Canto contra canto. Rio, 1981 ]

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NO BLOGUE DO POEMA/PROCESSO: BRUNA BEBER E REGINA POUCHAIN
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Balaio produzido ao som de Relendo Jacob do Bandolim,
de Joel do Nascimento [ RGE, 1998 ]
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POEMA DE GRAÇAS

Primeiro foi a poesia
Que se vestiu de roxo,
e foi embora,
deixando-me sozinha.
Agora foi a inspiração...
Malcriada
a diabinha.
Saiu fazendo estardalhaço.
Mandou-me uma banana
Sem tamanho,
gritando em alto e bom tom:
- Foda-se!

Não resisti...
- Foda-se também!

[ in Pra você que gosta de poesia ]




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Domingo, Julho 11, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
63 / 66: Rashomon (Japão, 1950),
de Akira Kurosawa

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POEMA DE EUGÉNIO DE ANDRADE (PORTUGAL)

Havia uma palavra

Havia
uma palavra
no escuro,
minúscula, ignorada.

Martelava no escuro,
martelava
no chão da água.

Do fundo do tempo.
Martelava.
Contra o muro.

Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.

[in Matéria solar, 1980,
extraído do blogue Arde o Azul ]


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Fragmento de um
POEMA DE HILDEBERTO BARBOSA FILHO (PB)

é preciso cantar
o corpo da mulher amada
e seus cálidos cardumes
na lagoa do tempo
antes que seja tarde

é preciso louvar
o corpo da mulher amada
e seus finos equinócios
de rubra geografia
antes que seja tarde

é preciso moldar
o corpo da mulher amada
e suas vastas aquarelas
nos epitáfios da água
antes que seja tarde

é preciso regar
o corpo da mulher amada
e seus noturnos lerões
nas órbitas da carne
antes que seja tarde

é preciso podar
o corpo da mulher amada
e seus secretos novelos
na névoa do beijo
antes que seja tarde

é preciso amar
o corpo da mulher amada
e suas claras rêmoras
nas luas do orgasmo
antes que seja tarde

é preciso cantar
o corpo da mulher amada
e suas lácteas litanias
na hóstia do olhar
antes que seja tarde

[in Pequena propedêutica litúrgica
ao sagrado corpo da mulher amada

(João Pessoa, 2000)]



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Sábado, Julho 10, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
62 / 66: Je vous salue, Marie (França, 1985),
de Jean-Luc Godard

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BALAIO PORRET@ 512
Rio, 10 de julho de 2004
Total de assinantes: 605


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"Não se sabe mais filmar, não se sabe mais olhar."
(Jean-Luc Godard, 1985)
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PAIXÃO DE GODARD: MEMÓRIAS DE UM CINÉFILO

Todos sabem da minha paixão pelo cinema de Godard; uma paixão antiga, iniciada em Natal, em 1962 (com Acossado, de 1959), e que vivenciara os anos febris da Geração Paissandu (1966-1974), já no Rio. Uma paixão que se renova a cada novo filme ou a cada nova revisão. E como sou fiel às minhas paixões e às minhas coerências, continuo bastante fiel ao cinema de Jean-Luc Godard. Como ao cinema de Antonioni, de Bergman, de Welles, de Renoir, de Visconti...
E quarta-feira, no Espação 1, na Voluntários da Pátria, estarei revendo uma de suas obras mais sensíveis e estimulantes: Passion, de 1982. Jacques Aumont, no livro O olho interminável [cinema e pintura], publicado no Brasil pela Cosac & Naify, em belo estudo, a partir desse filme, afirmaria que Godard é "O único a conhecer a solidão do pintor, o último, talvez, a acreditar ainda nos segredos da invenção criadora" (p.237). Talvez seja um exagero: o atual cinema de Alexandr Sokúrov, por exemplo, também aposta nos segredos da mais pura criação.
Mas voltemos ao que interessa. Eu disse: estarei revendo, mas seria melhor dizer: estarei vendo. Deixe-me explicar: quando o vi, em setembro de 1986, logo após o surgimento do Balaio, um pouco antes do nascimento de minha primeira filha (Ana Morena), não pude senti-lo em toda a sua plenitude. Em primeiro lugar, a exibição se deu num telão de vídeo; em segundo lugar, sem as cores originais. (Em terceiro lugar, durante quatro ou cinco minutos perdi a concentração no filme. Mas isso eu não poderia adivinhar que iria acontecer.) Afinal, Godard é Godard, e eu estava ali, num Vídeo-Clube Bar, numa rua escondida de Botafogo, para ver o inédito Passion.
A sessão fora marcada para as 22h. Às 21:30, mais ou menos, eu já me encontrava na sala, sozinho numa mesa, tomando a minha primeira cerveja da noite. Éramos poucos; dez ou 12 clientes, isto é, espectadores, além dos proprietários do local e de uma garçonete. Na platéia, um conhecido meu: o jornalista Mauro Costa. Mas eu estava ali para ver Godard e não para um papo em mesa de bar.
Tomava a segunda cerveja quando o filme começou a ser apresentado. Como sempre, a emoção me dominava. Decorridos cerca de 40 minutos, de um total de 87, entraram na espaçosa sala quatro sujeitos, que se dividiram em duas mesas. Dois sentaram-se próximos. Ouvi claramente um deles observar para o seu colega: "Cara, vire-se para a tela, estão exibindo um filme". Não tive mais a menor dúvida: eram assaltantes.
Durante alguns minutos perdi a concentração no filme: sair ou não sair. Percebera que Mauro Costa já o fizera, discretamente, depois de pagar a conta e afirmar num tom adequado para a ocasião: "Puxa, que filme chato. Vou continuar bebendo em outro lugar". Eu poderia fazer o mesmo, claro. Decerto, não seria incomodado. Seria compreensível que o fizesse, mesmo sendo a primeira vez que eu abandonaria pela metade um filme de cineasta daquele porte criativo.
Mas Godard era Godard, e o filme estava me sensibilizando. Pensei, então: "Só espero que eles não interrompam a sessão para nos assaltarem. Seria o fim da picada; esperei longos quatro anos pra ver esse Godard". Bom, se não foi exatamente isso que me veio à mente, foi algo parecido. Comecei a torcer para que eles também estivessem gostando de Passion; assim, talvez não interrompessem a apresentação. Mas, diabos, a cópia nem legendas tinha! O filme continuava, continuava, e voltei a me concentrar nas imagens de Godard.
Finda a sessão, quando já me preparava para pagar a conta, os quatro anunciaram o assalto. Um deles, bastante nervoso, por sinal o que ficara de costas para o telão, tomou conta do nosso grupo, recuado para um canto da sala. Enquanto isso, os outros três levavam todo o equipamenrto de vídeo e mais a fita de Godard (na verdade, pertencia ao meu amigo cineasta Luiz Rosemberg Filho, que a trouxera de Paris). O cara que ficou nos encurralando, com uma arma na mão, obrigou-nos a jogar no chão toda a nossa (pouca) grana, mais relógios e outros pertences. E ainda implicou comigo, esfregando o seu revólver no meu rosto: "Barbudo, você está escondendo a grana, vou te apagar, vou te apagar". E eu, aparentando calma: "Quequiéisso, cara, tô maluco pra fazer uma coisa dessas?". Realmente, não estava escondendo nada.
Mas o pior acontecia ao meu lado: a garçonete, agachada, com as mãos encobrindo o rosto, chorava como uma desesperada condenada à morte. Alguns de nós tentavam acalmá-la. Inutilmente. Ainda bem que o sujeito, muito nervoso e provavelmente drogado, não percebeu nada. Os outros três, "atarefados", menos ainda. Foram cerca de 20 minutos que pareciam não ter fim. Depois ainda nos ameaçaram: "Esperem meia-hora antes de irem embora; estaremos na esquina e mataremos o primeiro que tentar sair". Jogo de cena, evidentemente.
Os proprietários, então, serviram uma dose de uísque pra todos nós. E, só então, ficamos sabendo o motivo do choro desenfreado da garçonete: o assaltante que nos ameaçara diretamente morava em seu edifício. Naquele mesmo dia, tomaram o elevador juntos, para andares diferentes. Por sorte dela, ele não a reconhecera. Alguns a aconselhavam a não contar nada para os donos do vídeo-clube, e muito menos para a polícia; outros, que mudasse imediatamente de endereço. Na dúvida, fiquei pensando na beleza do filme de Godard. Recolhi-me ao silêncio e ao uísque.
Na próxima quarta, quase 18 anos depois, estarei revendo Passion, no mesmo bairro, quase na mesma rua. Ou melhor: estarei vendo Passion. Não mais numa cópia de vídeo. E sem assaltantes por perto, assim espero.

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Balaio produzido ao som de Quarteto K465 / Dissonância /,
de W.A. Mozart, por Juilliard String Quartet [ Sony Classical, grav. 1977 ]
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Sexta-feira, Julho 09, 2004

 
FILMES IMPERDÍVEIS

Refizemos a nossa seleção de FILMES IMPERDÍVEIS, ampliando-a em novo formato: agora são - 1) 28 filmes marcantes; 2) 56 filmes excelentes; 3) 164 filmes ótimos; e 4) 100 filmes especialmente bons, totalizando 348 títulos. O novo formato parece-nos mais razoável e menos rígido. Outros filmes poderão ser acrescentados (ou excluídos), como podem mudar de categoria, dependendo das revisões e/ou de novíssimas leituras.

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FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
61 / 66: A noite (Itália/França, 1961),
de Michelangelo Antonioni

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BALAIO PORRET@ 511
Rio, 8 de julho de 2004
Total de assinantes: 607


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"Na arte do desenho animado, ao contrário do que se pode pensar, as necessidades do grafismo não correspondem obrigatoriamente às necessidades do movimento." (René Laloux)
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O MELHOR DO CINEMA DE ANIMAÇÃO, PROVISORIAMENTE
(segundo a nossa perspectiva crítico-poético-afetiva)


Considerando que mais um Anima Mundi movimenta a cidade (são mais de 600 filmes, entre longas e curtas), ousamos apresentar, de forma atrevida, como sempre, a nossa seleção dos melhores filmes de animação, até os anos 90. Eis os filmes selecionados, até segunda ordem, já que, neste caso, ainda não vimos muitas produções decerto importantes:

Longas:

1. Velhas lendas tchecas (Trnka, 1953), produção tcheca
2. O planeta selvagem (Laloux & Topor, 1973), produção francesa
3. O submarino amarelo (Dunning & Edelman,1968), produção britânica
4. Fantasia (Disney, 1940), produção americana
5. Branca de Neve e os sete anões (Disney, 1937), produção americana
6. Akira (Otomo, 1988), produção japonesa

Curtas:

1. Labirinto (Lenica, 1962), produção polonesa
2. O pequeno western (Giersz, 1960), produção polonesa
3. Sinfonia diagonal (Eggeling, 1924), produção alemã
4. The food (Svankmajer, 1992), produção tcheca
5. Pas de deux (McLaren, 1969), produção canadense
6. O vermelho e o negro (Giersz, 1963), produção polonesa
7. Renascença (Borowczyk, 1963), produção polonesa
8. A margarida (Dinov, 1965), produção búlgara
9. O homem que plantava árvores (Back, 1987), produção canadense [média]
10. Rainbow dance (Lye, 1936), produção inglesa
11. Os vizinhos (McLaren, 1952), produção canadense
12. Meow! (M. Magalhães, 1982), produção brasileira
13. História curta (Popescu-Gopo, 1956), produção rumena
14. Uma noite no Mont Chauve (Alexeieff, 1933), produção francesa

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Balaio produzido ao som de A sagração da primavera,
de Igor Stravinski, por Pierre Monteux [ Decca, grav. 1954 ]
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DOIS POEMAS DE LAU SIQUEIRA (PB/RS)

por que
escrevo poemas
curtos?


(eu
ando
em
busca
do
silêncio)


mercado central
de joão pessoa


são tristes
as folhas murchas
do repolho
que um homem
faminto não pode
comer

[ in Poesia Sim ]



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Quinta-feira, Julho 08, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
60 / 66: Os visitantes da noite (França, 1942),
de Marcel Carné



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Quarta-feira, Julho 07, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
59 / 66: O processo (França/Alemanha/Itália, 1962),
de Orson Welles

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BALAIO PORRET@ 510
Rio, 7 de julho de 2004
Total de assinantes: 607


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"A mais indiscutível virtude de Kafka é a invenção de
situações intoleráveis." (Jorge Luis Borges)
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A METAMORFOSE EM TRÊS TEMPOS

A metamorfose, de Kafka, publicado em 1915, é um dos textos mais densos da literatura do século XX. Toda a "angústia kafkiana", que depois encontraria contornos ainda mais intrigantes em O processo, já aparece aqui de forma inusitada. No momento, estamos empenhados em três leituras da novela (ou conto, segundo alguns): duas traduções e uma adaptação, recém-lançada no mercado brasileiro, levando em conta, contudo, que não temos acesso ao original alemão.
Comecemos com a tradução de Modesto Carone: "Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso" (SP: Brasiliense, 1991, p.7). Vejamos a tradução de Jorge Luis Borges: "Al despertar Gregorio Samsa una mañana, tras un sueño intranquilo, encontróse en sua cama convertido en un monstruoso insecto" (Buenos Aires: Losada, 1976, p.15). Nos dois casos, o mesmo impacto semântico-temático.
Não será diferente na quadrinização de Peter Kuper (São Paulo: Conrad, 2004). Uma primeira página, totalmente preta, com letras destacadas em branco no seu eixo central: "Ao acordar naquela manhã de sonhos perturbadores, Gregor Samsa viu-se transformado...". Ao se virar a página, os desenhos de Kuper: expressionistas, duros, agressivos. Desenhos que serão a marca registrada nas páginas seguintes. Com uma cruel advertência: "Não era um sonho".
Decerto, existe uma brutal diferença entre a transcriação semântica de um texto e a adaptação desse mesmo texto para outra linguagem, com níveis de significação estética diferenciados. Não podemos ler uma revista de quadrinhos como se lê um livro. Antes de se perguntar pela possível fidelidade ao "clima" kafkiano, deve-se perguntar: Kuper conseguiu fazer de A metamorfose um bom quadrinho?
Ou seja, não se pode fazer uma leitura comparativa mecanicista em se tratando de linguagens diferentes. Lembremo-nos de O processo, quando foi lançado no cinema, em 1962: alguns o criticaram porque seria pouco kafkiano. Ora, ora, deveriam se indagar se o filme era wellesiano, se tinha a marca de Welles... Qualquer comparação deveria ser feita, em primeiro lugar, com o cinema do próprio Welles e com a produção cinematográfica da época. Kafka era uma referência importante, claro, mas não era a principal.
Curiosamente, Kuper, com seu estilo gráfico opressivo, bastante pesado no claro-escuro das imagens, consegue ser kafkiano na medida de suas pretensões estético-narrativas. Há uma passagem particularmente interessante, ainda no início, quando o gerente da firma vai visitar Gregor Samsa, em função de seu atraso.
Em Carone: "Estou perplexo, estou perplexo. Acreditava conhecê-lo como um homem calmo e sensato e agora o senhor parece querer de repente começar a ostentar estranhos caprichos. ... Porém, vendo agora sua incompreensível obstinação, perco completamente a vontade de interceder o mínimo que seja pelo senhor" (p.19-20).
Em Borges: "Estoy asombrado; yo le tenía a usted por un hombre formal y juicioso, y no parece sino que ahora, de repente, quiere usted hacer gala de incompresibles extravagancias. ... Pero ahora, ante esta incompresible testarudez, no me quedan ya ganas de seguir interesándome por usted" (p.25).
Em Kuper: a página é dominada por uma só imagem, sombria como as demais. E o balão, dividido em três tempos gráficos, indica a fala do gerente, que completa: "Estou chocado, CHOCADO! Achava que você era uma pessoa razoável!" Se é possível comparar as duas traduções, mesmo sem levar em consideração a matriz original do texto, a quadrinização de Kuper tem que ser remetida a outros quadrinhos e a outras adaptações de obras literárias. E que são muitas, inclusive no Brasil.
Mas ler Kafka através de Carone e Borges é viajar por terras prazerosas no campo fértil da leitura. Conhecer Kafka através de Kuper tem outra dimensão estética, mas igualmente importante, desde que não deixemos em segundo plano a relevância do texto enquanto escrita literária (já as HQs seriam uma escrita gráfica). Ou seja: leiamos/vejamos Kuper (que já incursionara pelo universo kafkiano), mas, antes de mais nada, leiamos Kafka. Tomemos a cena da morte de Gregor Samsa, por exemplo, depois de longa odisséia pelos labirintos das incertezas humanas.
Em Carone: "Recordava-se da família com emoção e amor. Sua opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã. Permaneceu nesse estado de meditação vazia e pacífica até que o relógio da torre bateu a terceira hora da manhã. Ele ainda vivenciou o início do clarear geral do dia lá do lado de fora da janela. Depois, sem intervenção da sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco o último fôlego" (p.80-81).
Em Borges: "Pensava con emoción y cariño en los suyos. Hallábase, a ser posible, aún más firmemente convencido que su hermana de que tenía que desaparecer.
Y en tal estado de apacible meditación e insensibilidad, permaneció hasta que el reloj de la iglesia dio las tres de la madrugada. Todavia pudo viver aquel comienzo del alba que despuntaba detrás de los cristales. Luego, a pesar suyo, su cabeza hundióse por completo, y su hocico despedió débilmente su postrer aliento" (p.72-73).
Em Kuper: três páginas narram o drama terminal de Gregor Samsa, sendo que as duas últimas, praticamente sem palavras, formam um só painel visual. Aqui, Kuper deixa de lado o seu traço definido, másculo, vigoroso, para mergulhar em sombras de baixa temperatura informativa, mas de alta configuração gráfica. Tudo se completa, nada se perde.
No final, apesar da tragédia familiar, a irmã de Gregor "havia florescido em uma jovem bonita e opulenta" (Carone, p.87), isto é, "habíase desarrollado y convertido en una linda muchacha llena de vida" (Borges, p.78). E o traço de Kuper, nos últimos enquadramentos, parece adquirir estranha e voluptuosa alegria.

Nota do Balaio: A 1a edição da tradução de Jorge Luis Borges é de 1943; a de Modesto Carone, de 1985. O original de Peter Kuper é de 2003.

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Balaio produzido ao som de Klaviersonaten KV 281 & 310,
de W.A. Mozart, por Emil Gilels, ao piano [ DG, 1970 ]
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Terça-feira, Julho 06, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
58 / 66: A idade de ouro (França, 1930),
de Luis Buñuel

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POEMA DE MARIZA LOURENÇO

TODA TUA

Vejo em teu corpo faminto
a boca salivando o desejo
de sugar com a língua
todo meu cheiro.
Tua alma indaga à minha,
- Como se sente a presa
que tal a ovelha, pressente,
será pelo lobo engolida?
Meu coração não te engana
com respostas furtivas,
antes, pede que enxergues
no vai-e-vem do meu peito,
dois frutos maduros
esperando teus beijos.
Em minha pele,
mais do que pêlos,
escorre o suor do desejo.
E, em meus olhos,
mais do que medo,
incrustam-se as luas do amor.

Sou toda tua,
a nossa hora chegou.

[ in Proseando com Mariza ]

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BALAIO PORRET@ 509
Rio, 6 de julho de 2004
Total de assinantes: 607


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"Imoralidade é a moralidade daqueles que se divertem mais do que nós."
(H.L. Mencken)
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NOSSAS RECOMENDAÇÕES DA SEMANA

Nos cinemas:
Moça com brinco de pérola, de Peter Webber
Nas bancas:
Aninha bonita e gostosa, quadrinhos de Harvey Kurtzman e Will Elder
Nas lojas de discos:
Sivuca & Quinteto Uirapuru

Humor
TEXTO DE MAX NUNES


Homeopoesia

Não sei se a homeopatia cura ou não.
Mas acho lindos os nomes de seus remédios.
Eis alguns, colhidos no velho Guia Homeopático
de Almeida Cardoso, de 1938.

Bórax - Lembra nome de âncora de telejornal,
mas resolve a falta do leite materno.

Briônia - Uma rainha da antiga Babilônia? Não.
É um remédio para problemas da bexiga e suores noturnos.

Dulcâmara - Para dores reumáticas ou nome
de mucama em filme brasileiro de época.

Gelsemium - Remédio para senhoras histéricas.
Cairia igualmente bem como nome de parlamentar corrupto.

Ipecacuanha - Serve para bronquite catarral
ou para batizar cidade do interior paulista.

Jucaína - Remédio que não informam muito bem para o que serve,
mas cujo nome seria ideal para índia de novela.

Lobélia - Poderia ser o título de um balé do Bolshoi
com coreografia de Roland Peti, mas também cura sarna.

Stramonium - Ficaria melhor como nome de compositor russo,
mas é remédio para insônia.

Uma certeza: enquanto houver homeopatia, não vai faltar poesia.

[ in O pescoço da girafa (Seleção e organização: Ruy Castro)]

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Balaio produzido ao som de Como tem Zé na Paraíba,
de Jackson do Pandeiro [ PolyGram / Mercury ]
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Segunda-feira, Julho 05, 2004

 
Memória
BALAIO PORERET@ [46]
Rio, 16/novembro/2001
Número de assinantes: 287


Curtição
PARA UMA BIBLIOTECA IDEAL
(2)

Literatura francesa
1. O vermelho e o negro (Stendhal, 1930)
2. O pai Goriot (Balzac, 1834)
3. As flores do mal (Baudelaire, 1857)
4. A educação sentimental (Flaubert, 1869)
5. Madame Bovary (Flaubert, 1856)
6. O estrangeiro (Camus, 1942)
7. Bouvard e Pécuchet (Flaubert, 1881)
8. Gargântua e Pantagruel (Rabelais, 1532)
9. Em busca do tempo perdido (Marcel Proust, 1913-27)
10. Cantos de Maldoror (Lautréamont, 1868)
11. Uma estação no inferno (Rimbaud, 1873)
12. A volta ao mundo em 80 dias (Verne, 1873)
13. A náusea (Sartre, 1938)
14. A modificação (Butor, 1957)
15. Cândido (Voltaire, 1759)

Literatura italiana
1. A divina Comédia (Dante, 1306-21)
2. Decameron (Boccaccio, 1349-53)
3. Eneida (Virgílio, 19aC)
4. Orlando furioso (Ariosto, 1516)
5. As cidades invisíveis (Calvino, 1972)
6. Os noivos (Manzoni, 1827)
7. A consciência de Zeno (Svevo, 1923)
8. Sonetos luxuriosos (Aretino, 1525)

Nota: Como da vez anterior, na medida em que misturamos poesia e prosa ficcional, a prioridade estabelecida por nós não é de ordem estética, mas sim afetiva. Nota 2: Se a Eneida não é literatura italiana no sentido filológico mais rigoroso, o é no sentido histórico, geográfico e emocional.

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FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
57 / 66: Roma, cidade aberta (Itália, 1945),
de Roberto Rossellini



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Domingo, Julho 04, 2004

 
FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
56 / 66: Nunca aos domingos (Grécia, 1959),
de Jules Dassin

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FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
55 / 66: Viagem ao princípio do mundo (Portugal/França, 1996),
de Manoel de Oliveira



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Sábado, Julho 03, 2004

 
Memória
BALAIO PORRET@ [41]
Rio, 8 desetembro de 2001
Número de assinantes: 280



PARA UMA BIBLIOTECA IDEAL (1)

Literatura norte-americana

1. Moby Dick (1851), de Herman Melville
2. O som e a fúria (1929), de William Faulkner
3. Cantos (1919-70), de Ezra Pound
4. Crônicas marcianas (1950), de Ray Bradbury
5. O velho e o mar (1952), de Ernest Hemingway
6. Poemas (1955), de Emily Dickinson
7. As aventuras de Huckleberry Finn (1884), de Mark Twain
8. Lolita (1958), de Vladimir Nabokov
9. As vinhas da ira (1939), de John Steinbeck
10. Um bonde chamado desejo (1947), de Tennessee Williams
11. A sangue frio (1966), de Truman Capote
12. Folhas da relva (1855), de Walt Whitman
13. USA (1930-36), de John Dos Passos

Literatura inglesa

1. As aventuras de Tom Jones (1749), de Henry Fielding
2. Hamlet (1603), de William Shakespeare
3. O rei Lear (1594), de William Shakespeare
4. Macbeth (1606), de William Shakespeare
5. A vida e as opiniões de Tristram Shandy (1759-68), de Laurence Sterne
6. As viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift
7. Ulisses (1922), de James Joyce
8. Robinson Crusoe (1719), de Daniel Defoe
9. Billennium (1962), de J.G. Ballard
10. Poesias (1922-43), de T.S. Eliot
11. O amante de Lady Chatterley (1913), de D.H. Lawrence
12. A cidade e as estrelas (1956), de Arthur C. Clarke
13. A guerra dos mundos (1898), de H.G. Wells

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FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
54 / 66: O último tango em Paris (Itália/França, 1972),
de Bernardo Bertolucci

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BALAIO PORRET@ 508
Rio, 3 de julho de 2004
Total de assinantes: 607


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"Mostre-me um puritano e eu lhe mostrarei um filho da puta."
(H.L. Mencken)
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MORREU MARLON BRANDO

Os cinéfilos estão de luto: morreu o ator Marlon Brando (1924-2004), um dos maiores do cinema americano (para muitos, o maior), que se destacou em filmes como Uma rua chamada pecado (Kazan, 1954), Sindicato de ladrões (Kazan, 1954), Caçada humana (Penn, 1966), Queimada (Pontecorvo, 1969), O último tango em Paris (Bertolucci, 1972), O poderoso Chefão (Coppola, 1972) e Apocalypse now (Coppola, 1979). Três opiniões que dizem tudo sobre o intérprete de O selvagem (Benedek, 1954): "Marlon Brando foi um homem cujo comportamento imprevisível o fez igualmente fascinante fora das telas. Aclamado o melhor ator de sua geração e vencedor de dois Oscars, influenciou alguns dos melhores atores de seu tempo, como Al Pacino, Robert De Niro e Jack Nicholson. Marlon odiaria a idéia de ver as pessoas aparecendo para comentar a sua morte. Tudo o que vou dizer é que estou triste por ele ter partido" (Francis Ford Coppola), "Atores como ele deveriam ser eternos. Um companheiro de trabalho maravilhoso, uma pessoa educada, um grande profissional" (Sophia Loren) e "Por sua cultura e inteligência, Brando estava um palmo acima de todas as outras estrelas americanas" (Gillo Pontecorvo). Mais uma opinião: "Brando foi a corporificação do herói sacrificável, o marginal arrogante que sempre encarou todos ao seu redor com um desprezo quase olímpico, passando de fúrias animalescas para a indiferença com a simplicidade ou o à-vontade de quem troca de camisa. Brando representou muitas vezes o emblema do herói que só pode ser entendido ou interpretado com as chaves de Freud. O único filme que dirigiu, o western A face oculta, é um compêndio de neuroses que fariam a delícia do pai da psicanálise" (Luiz Carlos Merten, na Tribuna do Norte, de Natal). Decerto, muitos de seus filmes serão reprisados nos próximos dias. Fiquemos atentos: Marlon Brando merece ser visto e revisto.

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Balaio produzido ao som de Capiba & outros,
pela Orquestra de Cordas Dedilhadas de Pernambuco
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Sexta-feira, Julho 02, 2004

 
FILMES IMPERDÍVEIS / FILMES EXCEPCIONAIS

Clique aqui para ver a nossa seleção de 300 filmes imperdíveis,
dos quais 88 são da maior excepcionalidade, segundo a perspectiva
crítico-afetiva por nós adotada.

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FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
53 / 66: Amarcord (Itália/França, 1974),
de Federico Fellini



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Quinta-feira, Julho 01, 2004

 
Memória
BALAIO INCOMUN 1350
Folha Porreta
Moacy Cirne
Rio, 2/12/2000


Poema/processo de MCirne


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FILMES QUE LEVARÍAMOS PARA UMA TEMPORADA DE
66 CREPÚSCULOS EM SÃO SARUÊ

Sem ordem preferencial
52 / 66: Quinteto da morte (Inglaterra, 1955),
de Alexander Mackendrick

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BALAIO PORRET@ 507
Rio, 1 de julho de 2004
Total de assinantes: 607


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"O jogador foi pruqui, pruli, pruculá. Assim num vale."
(De um juiz de futebol, no interior, justificando a anulação de um gol legítimo, depois que o lateral do time visitante driblou
quase a metade do time da casa)
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Tesourapress
DIA HISTÓRICO EM LISBOA
[ Extraído, em termos, do Jornal do Brasil ]

LISBOA - Foi uma vitória para entrar para a história a de Portugal, ontem, por 2 a 1, sobre a Holanda. A festa que começou no Estádio José Alvelade e continua pelas ruas é justíssima. Os gols de Cristiano Ronaldo e Maniche -- com Jorge Andrade marcando contra para os holandeses -- levam o país pela primeira vez a uma final de Eurocopa. Sob o comando de um Figo arrasador e um Felipão sempre iluminado em decisões, os portugueses quebraram a sina de não ir às semifinais. E hoje conhecerão o adversário da decisão de domingo, no Estádio da Luz, em Lisboa.
Se os portugueses buscam um título inédito, Luiz Felipe Scolari está a 90 minutos -- ou 120 -- da glória. Pode se tornar campeão europeu dois anos depois exatos de conquistar a Copa do Mundo pelo Brasil. A euforia de ontem o levou a confirmar que permanecerá com Portugal até a Copa de 2006.

O feito é digno das comemorações. Eusébio, o maior jogador da história do país, só conseguiu ir longe numa Copa, mas parando na semifinal ao perder para os ingleses em 1966. Em Eurocopas, Portugal ficou nas semifinais em 1984 e 2000, sempre caindo diante da França. Para exorcizar a sina, Felipão mandou o time atacar desde o início. A seleção lusa encurralou a Holanda, sobretudo porque Figo estava endiabrado. Em velocidade, rompia com arrancadas e dribles pelas pontas a marcação. Cristiano Ronaldo era seu coadjuvante de luxo, com jogadas e toques de efeito. No final, a vitória foi mesmo portuguesa. Com certeza. No próximo domingo tem mais; tem a grande final.


Enquanto isso
NO MARACA, FRUSTRAÇÃO RUBRO-NEGRA


Os clubes cariocas vivem, de fato, uma péssima temporada futebolística. Ontem, no Maraca, diante de 70 mil torcedores, o Flamengo viu o título da Copa do Brasil parar nas mãos (e nos pés) do paulista Santo André. Podendo empatar (0x0 e 1x1), os rubro-negros foram abatidos por 2x0. Com méritos. Para desespero da nação rubro-negra.


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Balaio produzido ao som de Forró brabo, de Pascoal Meirelles & Sexteto [ Rob Digital, 1998 ]
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Tesourapress
(com um viva para Portugal e um outro para o Santo André)

Crónica de Rita Ferro sobre o Europeu 2004
ANTES DO JOGO
[ in Expresso ]

Abrem-se as úlceras, os corações desgovernam-se, o País suspende-se: é a noite do Portugal-Holanda! A cores nas caras, nas camisolas - Portugal pintado a trincha! Por outro lado, a expectativa, a ansiedade, a dor! «Vens cá ver a bola?»

As donas de casa compram cervejas e batatas fritas, enchem as couvettes de gelo, limpam os ecrãs com um pano húmido, mudam as flores das jarras: «Deixa o pai, filho, já te avisei: ele hoje está nervoso!» Tudo a postos para a alegria ou para o luto, esperança ou desespero, estrépito ou silêncio. Mentira, ninguém está a postos para a derrota. Nunca ninguém está, é uma fé. Fé? Sim, Fé. Não sei exactamente como, mas, hoje, a Santíssima Trindade nacionalizou-se. Sem querer, os portugueses esperam que Deus tenha nascido em Alfama, ou em Trás-os-Montes, ou em Faro, e que torça muito mais por Portugal do que pela Holanda. No Portugal-Inglaterra, agarrada ao terço, a minha mãe rezou três mistérios a meu lado. Uma amiga, de Birre, assistiu ao mesmo desafio com um Santo António ao colo; em cada golo da selecção pregava-lhe um chocho na careca. Perguntei-lhes: «Com que direito se atrevem a incomodar Deus e os santos por uma questão menor como esta?» «Menor????» - perguntaram, condoídas. Como quem diz: «Deves ser deficiente.» Deficiente, talvez, mas ainda com a noção das proporções. Até quando, não sei: a minha mãe também já foi normal.





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