|
|
|
Comments:
Segunda-feira, Junho 11, 2007
Veja aqui o novo BALAIO VERMELHO:
virou BALAIO PORRETA 1986.
posted by MOACY CIRNE
11:54 PM
Comments:
Sábado, Janeiro 27, 2007
O Blogger.br resolveu implicar mais uma vez com os nossos comentários. Por que será? Por que não respeitamos o tal de W.C Bushit? Por que detestamos a axé music & similares? Por que preferimos Oscarito ao Oscar? Por que consideramos o poder imperial americano a maior força terrorista do planeta? Por que amamos a música antiga (da medieval à renascentista)? Respostas para o nosso emeio: balaio86@oi.com.br (ou, então, recorram ao Balaio Porreta, com a seleção dos melhores filmes que vimos em 2006, e os primeiros filmes vistos em 2007).
BALAIO INCOMUN 1941
Desde 1986
Rio, 27 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
POEMA de
Volonté (RN)
Confissão
Há alguns anos atrás
achava-me um dândi
hoje sou o começo da
metáfora
[ in Proemas. Natal, 2004 ]
ALMANAQUE do Balaio
Memória 1962
EU, TOM JOBIM
ATIVIDADE PROFISSIONAL
Músico.
ATIVIDADES OUTRAS
a) Fabricante de soltador de papagaios.
b) Pescador: com um caniço na mão a gente pode ficar o tempo que quiser, à superfície das águas, sem ser chamado de louco.
c) Chofer de VW, com delírio ambulatório.
PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES
Caixa alta: vagabundagem. Flanar pelas tardes de Ipanema.
Caixa baixa: "tremendous work".
QUALIDADES PARADOXAIS
Sou um boêmio doméstico, um tanto burro, um vagabundo trabalhador e um bagunceiro organizado.
PONTOS VULNERÁVEIS
Sou vulnerável em todos os pontos: depende do mV2 do projétil. Mas uso couraça.
ÓDIOS INCONFESSOS
Contra os letristas estrangeiros, quando deturpam as letras alheias.
PANACÉIA CASEIRA
Deixar de fumar, água e sal, saco de água quente, saco de gelo, banho frio, aspirina, banho quente, whisky-librium.
SUPERSTIÇÕES INVENCÍVEIS
Medo de avião.
TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS
Para um homem amarrado e amordaço, elas não existem.
MEDOS ABSURDOS
Para quem tem medo nada é absurdo. Absurdo é ter medo. Mas há surdos que não têm medo.
ORGULHOS SECRETOS
Paulo e Elizabeth, meus filhos.
[ Texto de Tom Jobim, in Senhor. Rio, dezembro de 1962 ]
Memória 1954
OS DEZ MELHORES SAMBAS BRASILEIROS
segundo Ary Barroso
[ in Revista da Música Popular, nº 1. Rio, setembro de 1954 ]
1. Gosto que me enrosco (Sinhô)
2. Amélia (Ataulfo Alves e Mário Lago)
3. Feitiço da Vila (Noel Rosa e Vadico)
4. Favela (Haeckel Tavares e Joracy Camargo)
5. Iaiá de Ioiô (Luís Peixoto e Henrique Vogeler)
6. Nervos de aço (Lupiscínio Rodrigues)
7. Agora é cinza (Bide e Marçal)
8. Se você jura (Nilton Bastos, Ismael e Chico Alves)
9. A fonte secou (Mansueto)
10. Deixa esta mulher chorar (Brancura)
[ Republicado em: Coleção Revista da Música Popular.
Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi; Funarte, 2006, 776p. ]
OS PRIMEIROS FILMES VISTOS EM 2007
Clique aqui para ver as cotações dos primeiros filmes
que (re)vimos em 2007. Em tempo:
num passe de mágica, os comentários estão ativados.
Nota do Balaio:
Por motivos técnico-operacionais, ou algo parecido, continuaremos em outra ocasião com OS FILMES MAIS IMPORTANTES DO CINEMA BRASILEIRO.
UM DISCO PORRETA
Tudo dança; choros, maxixes, sambas,
de Zé da Velha & Silvério Pontes
[ Rob Digital RD 021 (1999) ]
posted by MOACY CIRNE
3:55 AM
Comments:
Quarta-feira, Janeiro 24, 2007
Quanto mais o trabalho se aproxima da prostituição, mais tentador torna-se qualificar a prostituição como um trabalho - como já acontece há muito no jargão das prostitutas. (Walter BENJAMIN. Passagens. Belo Horizonte: EdUFMG; São Paulo: IOESP, 2006, p.406)
BALAIO INCOMUN 1940
Desde 1986
Rio, 24 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
POEMA de
Iara Maria (RN)
[ in Mulher na Janela ]
sei de pedra
como sei de deus
por isso, tropeço.
**************
MANCHA VERDE
por Marconi Leal
[ in Culturando ]
Como sou uma pessoa sensível e, além disso, um gourmet de refinado paladar, aproveitei o domingão para convidar minha consorte a comer o excelente sanduíche de mortadela do Mercado Municipal.
Há no primeiro andar do Mercado Municipal de São Paulo uma série de estabelecimentos honrados que servem a apetitosa iguaria, preparada com uma delicada porção de 300 gramas de mortadela e uma quantidade de óleo suficiente para abastecer o mercado internacional em caso de crise no Oriente Médio.
Contudo, sempre vou numa padaria do térreo, onde o acepipe sai por um preço mais em conta. Pois, patriotas, aqui em casa também estamos fazendo contenções para ajudar o governo a alcançar o superávit de 4,5%.
Além do quê, avesso a modernidades e grande entusiasta de Câmara Cascudo, gosto das manifestações populares autênticas. E os lanches preparados no pavimento superior carecem dos condimentos tradicionais do fast-food pátrio: micróbios, secreções corporais e demais segredos que fazem a fama de nossos alimentos ao redor do globo ou, quando menos, ao redor dos pronto-socorros dos hospitais.
Afinal, como disse algures, creio que a comida tratada sem futilidades como o asseio e a higiene é o maior traço da cultura nacional e responsável direta pelo brasileiro ser um povo ordeiro e pacato. Sim, porque o sujeito que prova de nossas refeições em locais públicos logo aprende a relativizar conceitos, ao descobrir que há no mundo coisas piores que a peste e a guerra.
Não tenho dúvidas, por exemplo, de que a teoria do homem cordial de Sérgio Buarque foi desenvolvida após um repasto no Mercado. E, assim, usando minha melhor voz de locutor de rádio dos anos 50, foi que disse a minha amada:
- Hoje nós vamos comer fora, querida.
- Não acredito! Naquele restaurante francês que tu tinha prometido?
- Bom, não é francês. Mas tem a ver com sujeira.
Algo ressabiada, ela se aprontou e, em seguida, nos dirigimos para a afamada ágora paulistana, que fica perto aqui de casa. Para chegar lá, basta pegar dois ônibus, de preferência os que não estejam sendo incendiados, e o metrô - de preferência uma linha cuja estação não esteja desabando.
Estávamos nós já dentro do trem, companheiros, quando me dei conta de que vestia uma camisa verde e uma calça esverdeada, presentes da minha cônjuge e que só mesmo meu grande amor por ela e, sobretudo, minha enorme paixão pelo couro das minhas costas me faziam usar.
Senão quando entram no veículo cinco ou seis torcedores do glorioso Corinthians Paulista, a caminho do estádio. Para dizer pouco, falarei apenas que os cavalheiros, ao se darem conta da minha presença, me olharam com uma cara mais feia que a do Lenine, o cantor.
- Tu é do Parmeira, mano?
- E-eu? Pa-Palmeiras? Que Palmeiras! Tenho tanta raiva do Palmeiras que até hoje nunca li a Canção do Exílio! - falei, enfático, assim que consegui voltar a respirar.
Mas a declaração não surtiu muito efeito. Talvez eles curtissem o Romantismo. O fato é que, em nova parada, outra leva de torcedores devidamente paramentados para o jogo entrou no vagão, com uma disposição para a carnificina só encontrada, talvez, entre os republicanos.
Ora, eu posso até ser um indivíduo calmo, pouco afeito a brigas, companheiros. Mas, destemido, quando pisam no meu calo, eu tomo uma atitude. E foi o que fiz. Tão-logo o metrô parou na estação seguinte, e vendo que mais e mais corintianos entravam e se punham a fazer gracinhas, puxei minha mulher pela mão e fugi desabaladamente, numa carreira maior que qualquer uma do Maradona.
Tendo descido em local desconhecido e não sendo a orientação topográfica um dos meus fortes, gastamos boas duas horas num belo city tour pela cidade, até conseguirmos voltar para casa.
De natural pouco propensa ao turismo urbano e a longos períodos sem se alimentar, minha amásia estava algo irritada. E isso apesar de eu elogiá-la inúmeras vezes, afirmando que a fome só fazia exalçar sua beleza.
Mas eu, que não me deixo abater por argueiros, me sentia como se tivesse de fato acabado de comer, em duas ou três mordidas, um suculento sanduíche de mortadela do Mercado. Pois, ainda trêmulo e tão verde quanto a minha camisa, assim que entramos no apartamento, vomitei até a alma.
UM DISCO PORRETA
Jam session,
de Charlie Parker,
com Benny Carter, Johnny Hodges, Oscar Peterson, Ben Webster & outros
[ Verve 833 564-2 (PolyGram 1990, grav. 1952) ]
posted by MOACY CIRNE
1:15 AM
Comments:
Terça-feira, Janeiro 23, 2007
As explicações místicas são consideradas profundas. Na verdade falta-lhes ainda muito para que sejam superficiais. (Friedrich NIETZSCHE. A gaia ciência [1881-82]. Trad. Márcio Pugliesi & outros. São Paulo: Hemus, 1981, p.135)
BALAIO INCOMUN 1939
Desde 1986
Rio, 23 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
Repeteco
CIDADES BRASILEIRAS
COM NOMES COMPOSTOS
POETICAMENTE EXPRESSIVOS
Água Doce do Maranhão (MA)
Água Fria de Goiás (GO)
Águas de Lindóia (SP)
Algodão de Jandaíra (PB)
Angra dos Reis (RJ)
Bela Vista do Paraíso (PR)
Belo Horizonte (MG)
Boa Vista do Lagamar (BA)
Caiçara do Rio do Vento (RN)
Dores do Rio Preto (ES)
Esquina do Céu Azul (PR)
Farol de São Tomé (RJ)
Flor do Sertão (SC)
Floresta Azul (BA)
Formosa da Serra Negra (MA)
Ingleses do Rio Vermelho (SC)
Jardim do Seridó (RN)
Lagoa Dourada (MG)
Monte Alegre dos Campos (RS)
Morro Cabeça no Tempo (PI)
Natividade da Serra (SP)
Olho d'Água das Flores (AL)
Palmeira dos Índios (AL)
Rancho Alegre d'Oeste (PR)
São Pedro da Água Branca (MA)
São Tomé das Letras (MG)
Serra Negra do Norte (RN)
Serra Talhada (PE)
Tabocas do Brejo Velho (BA)
Vale dos Sonhos (MT)
POEMA de
Carmen Vasconcelos (RN)
Tirésias
Eu fui o suor do Deus,
fui suas lágrimas,
fui um anjo feito do seu sangue.
E assim me apossei do segredo sagrado.
Furaram-me os olhos,
feriram-me com desonras,
mas não me roubaram o segredo.
Decretaram pena de exílio
à doida que havia em mim.
Ela foi degredada, banida,
mas não me arrastou o segredo.
Continuo macho e fêmea,
permaneço com gula de amor.
Sei que gozo não se mede,
nem para pedir perdão,
nem para afagar os deuses.
MELHORES E PIORES DE 2006
por Emir Sader
[ in Bafafá 100% Opinião. Rio, nº 64, janeiro de 2007 ]
Melhor derrota: a da mídia oligárquica nas eleições.
Melhor vitória: a de Jaques Wagner na Bahia.
Pior livro: Pornopolítica - da série "não li e não gostei".
Melhor livro: Planeta Favela, de Mike Davis.
Pior leitura: prêmio dividido entre Folha de S.Paulo e Veja.
Melhor leitura: prêmio dividido entre Carta Capital e Carta Maior.
Melhor programa de televisão: prêmio adiado para 2007.
Pior programa de televisão: Jô - da mema série "não vi e não gostei".
Pior humorista: empatados Chico Caruso e Millôr Fernandes.
Melhor cronista: Luís Fernando Veríssimo.
Maior mico: notícia da queda do avião da Gol não dada pelo Jornal Nacional.
Melhor personagem político: Evo Morales.
Pior personagem político: FHC.
Melhor vitória esportiva: Internacional contra o Barcelona e seleção de vôlei masculino campeã mundial.
Pior momento esportivo: fiasco da seleção brasileira na Copa do Mundo.
Pior vitória: Itália campeã mundial de futebol.
Melhor cabeçada: Zidane.
Pior cabeçada: Zidane.
Revisitando o
BALAIO PORRET@ 506
Rio, 28 de junho de 2004
Total de assinantes: 606
--------------------------------------------------------------------------------
"Às vezes, nem a música pode substituir as lágrimas."
(Paul Simon)
--------------------------------------------------------------------------------
MÚSICA DE FILMES
Blogueando pela internet descobri em Bioscópio que o American Film Institute, depois de consultar 1500 especialistas, acaba de apontar a seleção das 100 melhores músicas para o cinema. As 40 primeiras são as seguintes:
01. Over the rainbow, em O mágico de Oz (1939)
02. As time goes by, em Casablanca (1942)
03. Singin' in the rain, em Cantando na chuva (1952)
04. Moon River, em Bonequinha de Luxo (1961)
05. White Christmas, em Duas semanas de prazer (1942)
06. Mrs. Robinson, em A primeira noite de um homem (1967)
07. When you wish upon a star, em Pinóquio (1940)
08. The way we were, em Nosso amor de ontem (1973)
09. Stayin' alive, em Os embalos de sábado à noite (1977)
10. The sound of music, em A noviça rebelde (1965)
11. The man that got away, em Nasce uma estrela (1954)
12. Diamonds are a girl's best friend, em Os homens preferem as loiras (1953)
13. People, em A garota genial (1968)
14. My heart will go on, em Titanic (1997)
15. Cheek to cheek, em O picolino (1935)
16. Evergreen (Love theme from 'A star is born'), em Nasce uma estrela (1976)
17. I could have danced all night, em Minha bela dama (1964)
18. Cabaret, em Cabaré (1972)
19. Some day my prince Will Come, em Branca de Neve e os sete anões (1937)
20. Somewhere, em Amor, sublime amor (1961)
21. Jailhouse rock, em O prisioneiro do rock (1957)
22. Everybody's talkin', em Perdidos na noite (1969)
23. Raindrops keep fallin' on my head, em Butch Cassidy (1969)
24. Ol' man river, em O barco das ilusões (1946)
25. High noon (Do Not Forsake Me, Oh My Darlin'), em Matar ou morrer (1952)
26. The Trolley Song, em Agora Seremos Felizes (1944)
27. Unchained melody, em Ghost - Do outro lado da vida (1990)
28. Some enchanted evening, em South Pacific (1958)
29. Born to Be Wild, em Sem destino (1969)
30. Stormy weather, em Stormy weather (1943)
31. Theme from 'New York, New York', em New York, New York (1977)
32. I got rhythm, em Um americano em Paris (1951)
33. Aquarius, em Hair (1979)
34. Let's call the whole thing off, em Vamos Dançar? (1937)
35. America, em Amor, sublime amor (1961)
36. Supercalifragilisticexpialidocious, em Mary Poppins (1964)
37. Swinging on a star, em O bom pastor (1944)
38. Theme from 'Shaft', em Shaft (1971)
39. Days of wine and roses, em Vício maldito (1963)
40. Fight the power, em Faça a coisa certa (1989)
--------------------------------------------------------------------------------
Balaio produzido ao som de Capitol sings the best movie songs, por Nat King Cole, Judy Garland, Dean Martin e outros [ Capitol, 1992 ]
--------------------------------------------------------------------------------
UM DISCO PORRETA
Laudes de Sainte Ursule,
de Hildegard von Bingen (1098-1179),
por Marcel Péres / Ensemble Organum
[ Harmonia Mundi HMC 901626 (1997) ]
posted by MOACY CIRNE
8:16 AM
Comments:
Segunda-feira, Janeiro 22, 2007
É inimaginável o manto de tristeza e sofrimento que se estende sobre muitos povos, vítimas de guerras como na África e no Oriente Médio. Todas as guerras são estúpidas. Mas especialmente estúpida é a guerra contra o Iraque, baseada na mentira de um Presidente que manipulou a lamentada ingenuidade do povo norte-americano, do qual 80% dos adultos, segundo o National Geographic, sequer sabe onde fica no mapa o Iraque. Como disse o cineasta Michael Moore numa carta aberta ao Congresso e ao povo norte-americano: "é uma guerra perdida porque jamais teve o direito de ser vencida". // O presidente Bush, em sua arrogância crédula e o Pentágono, em sua confiança infantil nas "armas inteligentes", asseguram que vão ganhar a guerra. Nunca a ganharão, porque contra as "armas estupidificadas" atiram-se versículos do Corão e se enviam todo dia resistentes em ataques suicidas. Vale para o Iraque o que o futurólogo Herman Kahn dizia da guerra contra o Vietnam: "perdemos a guerra porque não dá para vencer um povo que contra tanques recita poesias". (Leonardo BOFF, O Corão contra 'armas inteligentes', in CartaMaior)
BALAIO INCOMUN 1938
Desde 1986
Rio, 22 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
REVENDO OS FILMES DE CASSAVETES
por Júnior
[ in O Anjo Exterminador ]
Revendo os filmes de Cassavetes (sobretudo Faces e Love streams), penso que o cinema é uma arte do insterstício, onde estão em jogo não apenas representações (fantasmagóricas) do cara que se exprime quanto a minha percepção em determinado momento, o meu modo de ser e perceber sob uma luz tal e qual.
Não que o cinema tenha de escolher entre uma e outra percepção, balanceá-las, equilibarar suas físicas muitas vezes inconciliáveis (Faces, que eu adoro, é um filme que me é sempre muito difícil de rever, uma tormentosa experiência épica, descontínua e estriada de paradoxos), mas ele necessariamente é uma arena onde se realiza a grande síntese entre as percepções, experiências, sentidos pertencentes a mim, a ele, a nós.
O lugar de uma nova mística, de uma reconciliação se não possível ao menos verossivelmente imaginável?
Duvido muito. Pois a cada revisão, em determinada luz e sob um estado de humor camaleônico, a relação se inverte, traveste, perverte. Partes distintas e inconciliáveis de nosso ser são recolocadas em jogo, numa batalha que muitas vezes se assemelha ao jogo amoroso, onde as arestas fazem mais sentido que possíveis harmonias melódicas. Ser um espectador de cinema é, sempre e em primeiro lugar, ser a peça d eum jogo diferencial e múltiplo, do qual o filme é a ponta de lança mas não o necessário e último estágio do sentido. O filme se dá na minha consciência, mas esta se refrata em uma série de linhas que pertencem ao filme, sua origem e destinação: o diretor, a situação histórica, a recepção que teve. E uma arena se engendra e enquadra na outra, recíproca e hermenêuticamente relevantes.
E o que dizer das linhas de fuga e encontro, das perversões de sentido, das rotas de colisão presentes nas revisões de Stroheim, Hou Hsiao, Oshima, Bresson, Fuller, Gerd Oswald, Pialat, Monteiro, Shinoda?
DOIS POEMAS
de Chico Doido de Caicó (RN)
Gosto de mulher de tudo que é jeito
Até das muito bonitas
Que não sabem foder muito bem
E até mesmo daquelas
Que nunca deram o xibiu
Para o meu consumo.
( *** )
Uma talagada de cana
Uma amizade bacana
Uma buceta sacana
Pra que mais?
Pra que mais?
Uma poesia carnuda
Uma palavra cabeluda
Uma jovem bucetuda
Pra que mais?
Pra que mais?
DEZ FILMES NACIONAIS "ESQUECIDOS" PELA CRÍTICA, HOJE
(e que pretendemos rever)
Barnabé, tu és meu (1952), de José Carlos Burle,
com Oscarito, Grande Otelo, Fada Santoro, Cyll Farney
Amei um bicheiro (1953), de Jorge Ileli e Paulo Wanderley,
com Cyll Farney, Eliana Macedo, Grande Otelo, José Lewgoy
Agulha no palheiro (1953), de Alex Viany,
com Fada Santoro, Roberto Batalin, Dóris Monteiro, Hélio Souto
Uma pulga na balança (1953), de Luciano Salce,
com Waldemar Wey, Gilda Nery, Mário Sérgio, Paulo Autran
A estrada (1955), de Oswaldo Sampaio,
com Miro Cerni, Agnes Fontoura, Pagano Sobrinho, Verah Sampaio
Osso, amor e papagaios (1957), de Carlos Alberto de Souza Barros e César Mêmolo Jr.,
com Jaime Costa, Modesto de Souza, Wilson Grey, Jackson de Souza
Absolutamente certo (1957), de Anselmo Duarte,
com Anselmo Duarte, Dercy Gonçalves, Odete Lara, Aurélio Teixeira
Ravina (1959), de Rubem Biáfora,
com Eliane Lage, Mário Sérgio, Pedro Paulo Hatheyer, Victor Merinov
Viagem ao fim do mundo (1968), de Fernando Campos,
com Karin Rodrigues, Annik Malvil, Talula Campos, Jofre Soares
Assuntina das Amérikas (1975), de Luís Rosemberg Filho,
com Analu Prestes, Nelson Dantas, Cidinha Milan, José Celso Martinez
Nota:
Com exceção do filme de Rosemberg, não revemos os demais há bastante tempo.
Na verdade, alguns deles são exibidos, eventualmente, no Canal Brasil.
Será que já estão copiados em dvd?
10 FILMES DE VAMPIROS ESSENCIAIS
Sérgio Andrade (SP)
[ in Kinocrazy ]
A Dança dos Vampiros (Roman Polanski)
Drácula (Tod Browning)
Drácula de Bram Stoker (Francis Ford Coppola)
Entrevista com o Vampiro (Neil Jordan)
Nosferatu (F.W. Murnau)
Nosferatu (Werner Herzog)
Rosas de Sangue (Roger Vadim)
O Vampiro da Noite (Terence Fisher)
Vampiros de John Carpenter (John Carpenter)
Vampyr (Carl Theodor Dreyer)
POEMA/PROCESSO 1986
de Moacy Cirne
[ Projeto inaugural: 1986 ]
Versão 2000:
ESTE POEMA é merda pura. Não, este poema não é merda pura.
Este poema é um soco no saco dos sacanas da Sibéria.
Não, este poema não é um soco no saco dos sacanas da Sibéria.
Este poema é um convite para uma viagem a Marte e São Saruê.
Não, este poema não é um convite para uma viagem a Marte e São Saruê.
Este poema é um grito contra os agiotas da grafia palavrosa.
Não, este poema não é um grito contra os agiotas da grafia palavrosa.
Este poema é um bangalafumenga qualquer qualquer qualquer.
Não, este poema não é um bangalafumenga qualquer qualquer qualquer.
Este poema é um sim, é um não, é um talvez.
Não, este poema não é um sim, não é um não, não é um talvez.
Este poema é um dedo, um dado, um dia do folheto de cordel.
Não, este poema não é um dia, um dado, um dedo do folheto de cordel.
Este poema é uma boa bosta.
Sim, sim, sim!
Este poema é uma boa bosta; de preferência, com farinha.
[ in Balaio Incomun 1337, de 1/11/2000 ]
UM DISCO PORRETA
Jelly-Roll Morton 1924-1926,
por Jelly-Roll Morton
[ Classics 599 (1991, grav. 1924-26) ]
posted by MOACY CIRNE
12:48 AM
Comments:
Domingo, Janeiro 21, 2007
Quem vive sem loucura não é tão sensato quanto imagina. (La ROCHEFOUCAULD. Reflexões e máximas morais [1664-78]. São Paulo: Cultrix, 1962, p.66)
BALAIO INCOMUN 1937
Desde 1986
Rio, 2ª edição do dia
21 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
Tesourapress
HUMANO, DEMASIADO FRÁGIL
Sanderson Negreiros (RN)
[ in Tribuna do Norte, em Quadrantes ]
1. Conta-se que Padre Mota, experimentado conhecedor da natureza humana e que, durante a existência inteira, marcou a vida de Mossoró, certa vez recebeu no confessionário uma dama que, penitente, foi logo dizendo:
- Padre Mota, meu grande pecado é o orgulho.
O vigário, bonachão e curioso daquele testemunho tão veraz e eloqüente, foi perguntando:
- Minha filha, você é rica?
- Não, senhor.
- Você é bonita, elegante, charmosa?
- Não, senhor.
- Você é inteligente, tem cultura?
- Não, senhor.
- Me diga uma coisa: você é de uma família muito importante?
- Não, senhor.
E Padre Mota, do alto de seus sapatos de fivela - sapato de monsenhor protonotário apostólico - perdeu certa paciência magnânima e foi, como sempre, sincero e objetivo:
- Então, minha filha, você não é orgulhosa. Você é muito é da besta.
E anotemos na nossa agenda: quantas vezes na vida pensamos que agimos por orgulho, quando, na realidade, o que somos mesmo é donos da besteira universal, unânime e concreta. A besteira da arrogância.
2. Leio nas memórias de Vitorino Freire uma passagem deliciosa com Benedito Valadares, mestre da matreirice política de Minas Gerais. Certa vez, Vitorino, senador pelo Maranhão, mais o senador Gilberto Marinho, conversavam com Benedito, autor inclusive da famosa frase: "Estou rouco de tanto ouvir". O velho pessedista mineiro, que Getúlio retirou do anonimato de Patos de Minas, onde era humilde dentista, e o fez interventor por quase quinze anos. Consabidamente não falava, mas era de uma sabedoria política inquestionável. Dele também é a sábia advertência: "Só realize reunião quando tiver decidido tudo antes. Reunião é feita para aprovar". Certo dia, Benedito estava conversador mais do que a medida permitida pela prudência mineira. Vitorino e Gilberto Marinho ficaram em silêncio, vendo e ouvindo a desenvoltura do velho Valadares. Mas, mal discorria, Benedito pára e cala. Vitorino interroga:
- Benedito, por que você parou de falar?
E a matreirice responde:
- Parei porque vocês estavam prestando muita atenção no que eu estava dizendo.
3. A melhor história que ouvi até hoje, elejo uma a mim contada por João Batista Machado, o nosso Machadinho. Acontece que Padre Sales, venerando sacerdote mossoroense, ao completar 80 anos, recebeu homenagens merecidas, culminando com um banquete. Ao agradecer todos os elogios de seus ex-alunos e amigos, foi de uma sábia franqueza: "Meus conterrâneos, ao agradecer tantas louvações, quero dizer-lhes o seguinte: Depois de ser vigário nestas paróquias todas do Oeste, andando a cavalo e jumento, subindo e descendo serras, usando essa batina preta e grossa, com 40 graus de calor, quero concluir, dizendo: - Se esse tal de céu não existir, ô tabocada que eu levei... Isso sem esquecer os votos que fiz e cumpri fielmente: o da castidade, pobreza e obediência".
É demais para um pobre vivente - mesmo sendo Servo de Deus. Hoje, obviamente, mais difícil ainda.
posted by MOACY CIRNE
7:13 PM
Comments:
RECOMENDAMOS ESPECIALMENTE: Igreja da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, ao lado do convento e da Igreja de Santo Antônio, no Largo da Carioca (Rio). Construção iniciada em 1700, inaugurada em 1737. No teto da nave, a primeira pintura feita em perspectiva no território brasileiro, por Caetano da Costa Coelho, em 1737-40. As talhas em estilo barroco são de Manoel de Brito (criação) e Xavier de Brito (execução). A capela do Santíssimo também é do séc. XVIII. Hoje, a Igreja está transformada em Museu de Arte Sacra. Para os que vêm ao Rio, uma visita imperdível. E que não se esgota nas facilidades de um turismo sem qualquer personalidade cultural.
BALAIO INCOMUN 1936
Desde 1986
Rio, 21 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
Uma viagem sentimental pela
BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS:
600 livros indispensáveis (2/100)
Navegos, de Zila Mamede. Belo Horizonte: Vega, 1978, 200p. [Com dedicatória da Autora: "Ao querido amigo Moacy Cirne, com o velho carinho e grande admiração de Zila", em Natal, 17/10/78.] A poesia reunida da norte-rio-grandense nascida na Paraíba, um dos nossos ícones literários: Corpo a corpo, Exercício da palavra, o ótimo O arado, Rosa de pedra. E outros livros. Com prefácio (muito bom) de Paulo de Tarso Correia de Melo.
Leandro Gomes de Barros: 140 anos (1865-2005), com xilogravura de Klévisson Viana. Fortaleza: Tupynanquim, março de 2005, 12 romances de cordel. [Adquirido em Fortaleza, em 2005.] LGB, autor de mais de 1000 folhetos e romances de cordel, é, provavelmente, o nosso maior poeta popular. Em destaque, nesta coletânea: A vida de Canção de Fogo e seu testamento, A donzela Teodora, Juvenal e o dragão, A vida de Pedro Cem.
Obras completas, de Federico Garcia Lorca. Madrid: Aguilar, 1972, 2018p. [Presente de Nei Leandro de Castro, em 1998.] A poesia e o teatro de um dos gigantes da literatura espanhola do século XX. Há também Impressões e Narrações em prosa. Relendo-o vejo como a sua matriz poética não perdeu a força lúdico-simbólica que sempre a alimentou formal e tematicamente. Prólogo do poeta Jorge Guillen. Desenhos (coloridos) do próprio Lorca.
A cidade e as estrelas, de Arthur C. Clarke. Trad. Hélio Pólvora. Rio de janeiro: GRD, 1967, 172p. [] A ficção científica também tem seus ícones, suas emblematizações, seus desafios, suas obras-primas. E o romance de Clarke, publicado em 1956, é uma obra-prima não só da FC, mas igualmente da literatura inglesa do século passado. A partir de uma novela (Anticrepúsculo), Clarke constrói impensável utopia, em termos críticos e narrativos.
Machado de Assis, de Astrojildo Pereira. Rio de Janeiro: Liv. São José, 1959, 276p. [] A fortuna crítica machadiana comporta, decerto, estudos mais apurados, análises mais sofisticadas, leituras mais exigentes e atualizadas. Mas este é um livro especial, que diz respeito à questão do saber militante em toda a sua plenitude política. Astrojildo, não esqueçamos, foi um dos fundadores do PCB, em 1922. E sua compreensão de Machado é valiosa.
Magnum Cinema, ed. Cahiers du Cinema, textos de Alain Bergala. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994, 360p. [] Não são fotos de filmes e sim de filmagens e/ou pós-filmagens: diretores, atores, técnicos em momentos de tensão ou distração. Algumas delas são inesquecíveis: Welles (por Nicolas Tikhomiroff, p.201), Antonioni (por Bruce Davidson, p.224-25), Ingrid Bergman (por Robert Capa, p.299), Simone Signoret (por Eve Arnold, p.311).
UM FILME PORRETA
The quiet man / Depois do vendaval (USA/Irlanda, 1952),
de John Ford,
com John Wayne, Maureen O¿Hara, Barry Fitzgerald, Victor McLaglen.
Saborosa realização fordiana, contém a melhor e mais entusiasmada "briga" do cinema americano, até hoje: a que envolve John Wayne e Victor McLaglen. Um filme que é um hino à natureza e aos valores humanos.
UM DISCO PORRETA
ConSertão,
por Elomar, Paulo Moura, Heraldo Monte e Arthur Moreira Lima
[ Kuarup KCD-08/9 (grav. 1982) ]
* Principais faixas: Estrela maga dos ciganos/Noite de Santo Reis (Elomar), Na estrada das areias de ouro (Elomar), Pau de arara (Luiz Gonzaga), Leninia (Codó), Espinha de bacalhau (Severino Araújo), Pedacinhos do céu (Waldir Azevedo).
posted by MOACY CIRNE
6:18 AM
Comments:
Sábado, Janeiro 20, 2007
... a literatura é sempre linguagem deslocada, linguagem fora do lugar. E é nesse deslocamento que ela cumpre sua função - sutil, quase imponderável se quisermos avaliar-lhe a ação efetiva no conjunto das mutações sociais - mas obstinada e indispensável nessa tarefa que é a sua: a de revolver criticamente a linguagem, quando esta já se instalou como véu ideológico; quando esta já se institucionalizou, como fala oficial da Verdade e forma legal do Belo. (Leyla PERRONE-MOISÉS, Lautréamont e Raul Pompéia, in Revista de Cultura Vozes, ano 74. Petrópolis, agosto 1980, p.20)
BALAIO INCOMUN 1935
Desde 1986
Rio, 20 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
POEMA de
Márcia Maia (PE)
[ in Tábua de Marés ]
táctil
num ponto impreciso entre
seda veludo
pêssego e vinho
a (in)exata palavra
que tange sugere
seduz
POEMA de
Marcelo Ikeda (RJ)
[ in Cinecasulofilia ]
estou aqui
bem certo ao longe
perto demais
mas ali estou
longe de tudo aqui
lo que me pert
ence não mais
ALMANAQUE do Balaio
Memória 1980
OS MAIS IMPORTANTES FILMES BRASILEIROS
DE TODOS OS TEMPOS
[ in Revista de Cultura Vozes, agosto de 1980 ]
Na opinião de ANA CAROLINA / cineasta /:
Rio, 40 graus (Nelson Pereira dos Santos)
Mar de rosas (Ana Carolina)
Tudo bem (Arnaldo Jabor)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos)
O amuleto de Ogum (Nelson Pereira dos Santos)
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
A viúva virgem (Rovai)
Nos embalos de Ipanema (Calmon)
Carnaval no fogo (Watson Macedo)
A casa assassinada (Paulo César Saraceni)
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)
Como era gostoso o meu francês (Nelson Pereira dos Santos)
Segundo ISMAIL XAVIER / teórico de cinema /:
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
Terra em transe (Glauber Rocha)
Di (Glauber Rocha)
O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla)
O anjo nasceu (Júlio Bressane)
Matou a família e foi ao cinema (Júlio Bressane)
Os fuzis (Ruy Guerra)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos)
Os inconfidentes (Joaquim Pedro de Andrade)
Bangue bangue (André Tonacci)
Iracema (Bodansky & Senna)
Eu sou vida, eu não sou morte (Haroldo Marinho Barbosa)
Na opinião de JEAN-CLAUDE BERNARDET / teórico e crítico de cinerma /:
Di (Glauber Rocha)
Terra em transe (Glauber Rocha)
Triste trópico (Arthur Omar)
O anjo nasceu (Júlio Bressane)
O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos)
Eu sou a vida, não sou a morte (Haroldo Barbosa)
Orgia ou O homem que deu cria (João Silvério Trevisan)
A pedra da riqueza (Vladimir Carvalho)
Cultura e loucura (Antônio Manuel)
Lavrador (Paulo Rufino)
Telejornal (Oswaldo Caldeira)
Segundo a opinião de WALTER CARVALHO / fotógrafo e documentarista /:
Rio, 40 graus (Nelson Pereira dos Santos)
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos)
Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha)
Os fuzis (Ruy Guerra)
O caso dos irmãos Naves (Luís Sérgio Person)
Menino de engenho (Walter Lima Jr.)
Opinião pública (Arnaldo Jabor)
O país de São Saruê (Vladimir Carvalho)
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade)
Aruanda (Linduarte Noronha)
Viramundo (Geraldo Sarno)
A pedra da riqueza (Vladimir Carvalho)
Nota do Balaio:
Outras "seleções cinematográficas" serão apresentadas no próximo sábado.
Memória 1941
AS COTAÇÕES DE A CENA MUDA
Consultando o nº 1059, de 8 de julho de 1941, da revista A Cena Muda, verificamos um curioso quadro de cotações para os filmes exibidos entre nós, no final de cada comentário: Abacaxi, o pior; Abacaxi enfeitado, sofrível; Gol, bom; Campeão, ótimo. Núpcias de escândalo (The Philadelphia story), por exemplo, mereceu uim Gol!
Memória 1972
CLASSIFICADO DA REVISTA BONDINHO
[ São Paulo, nº 36, 15 de março de 1972 ]
Profundezas abissais
Preciso de amigos que falem a minha linguagem, que amem tanto Bach quanto Bethânia, que tenham se detido por um momento em Bosch e Renoir, que tenham ao menos tentado compreender Nietszche e Vinicius de Moraes, que gostem muito, e muito de teatro e de cinema, que tenham voado para além das montanhas do horizonte, que tenham um dia feito uma poesia muito pequenina e que, sobretudo, respeitem e procurem entender e amar as vagas angústias das nebulosas profundezas abissais de seus próprios espíritos. (F. Joseph, Curitiba).
UM DISCO PORRETA
Clarinet quintet, op. 115 & String quintet nº 2, op. 111,
de Johannes Brahms,
por Alban Berg Quartett, com Sabine Meyer à clarineta
[ EMI Classics 56759 (1999) ]
posted by MOACY CIRNE
1:03 AM
Comments:
Sexta-feira, Janeiro 19, 2007
Por mais desconfiança que tenhamos da sinceridade dos que nos falam, sempre julgamos que a nós eles dizem mais verdade que aos outros. (La ROCHEFOUCAULD. Reflexões e máximas morais [1664-78]. São Paulo: Cultrix, 1962, p.95)
BALAIO INCOMUN 1934
Desde 1986
Rio, 18 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
UM GATO chamado Mussorgski
de Rosa Amanda Strausz (RJ)
[ in Fábula Portátil ]
Chove lá fora.
Mas só os olhos do pintor vertem água.
DE LÍRIO e encantamentos
Bosco Sobreira (CE)
[ in Politicamente Incorreto ]
essa moça
me roubou a poesia
e a guardou
bem guardado
encantada em sendas
vales
montanhas
colinas
e
florestas
e
lírio
e amanheceres
vez em quando
(só por demais bem-querer)
ela ma devolve
inteira
(acrescida sempre de um muito mais)
quando se veste de
nua
POEMA de
Ana de Santana (RN)
Hanan-Pacha
Território mito
De antes do medo
Acompanha-me lírico
Cavalos selvagens
Território seco
De tempos e tempos
Fixa-me ao chão
Talento de chique-chique
A memória voragem
Em Grand Reino
De versos bastardos:
Bandoleiros
Saqueando feiras.
Primado de saias
Seios e valas.
MAIS UMA PREÁ NATALENSE
Depois de alguns meses sem ser publicada, eis que a Fundação José Augusto e o editor Tácito Costa lançam o nº 18 da revista Preá. Entre os destaques, os contos de Bartolomeu Corrêa de Melo e Carmen Vasconcelos, além da entrevista com o produtor musical José Dias e da crítica de Marcos Aurélio Felipe sobre o filme O homem urso. Há outras matérias interessantes, é bom que se acrescente.
UMA TORRE BÍBLICA
A historinha a seguir, contada por Valério Mesquita, de Macaíba, RN, foi vivenciada por François Silvestre, escritor e ex-presidente da FJA, de Natal. Vejamos como o cronista e político macaibense a contou: Muitas são as atribuições enfrentadas pelo presidente da Fundação José Augusto. Pedidos de emprego eram rotinas que desafiavam a capacidade do escritor François Silvestre. Certa vez, foi procurado por um pai extremado que defendia com ardor um cargo comissionado para a sua filha. "Dr. François, a minha filha fala corretamente quatro idiomas. Onde o senhor pode colocá-la?". Sem se perturbar, com a mão esquerda segurando a cabeça, silencioso, François, suspirou: "Só se for na Torre de Babel" (Valério MESQUITA, Aqui e alhures, in Tribuna do Norte, 16/01/2007, em Artigos).
TRIVELA: A SALVAÇÃO PARA QUEM GOSTA DE FUTEBOL
por Milton Ribeiro (RS)
[ in Improvisações sobre literatura ]
Há mais de trinta anos, sou um consumidor diário de notícias esportivas. Tal bagagem talvez me permita citar os principais vícios do jornalismo esportivo brasileiro:
1. O jornalismo esportivo brasileiro adora fazer oba-oba com os vencedores. Eu escrevi oba-oba, não escrevi análise sobre os motivos que levaram A ou B a vencerem.
2. O jornalismo esportivo brasileiro esquece, massacra ou estigmatiza os perdedores. O que perde, é o perdedor, prescinde também de motivos. No ano seguinte, se ganhar, é porque aprendeu com seus erros.
3. O jornalismo esportivo brasileiro é localista. Ele pensa "Nós perdemos" e "Nós ganhamos". O adversário é sempre um detalhe, mesmo que seja uma máquina de jogar futebol. Se nosso time piora, isto significa que decaímos por falta de esforço, provavelmente. O que possa ter feito o adversário é ignorado.
4. O jornalismo esportivo brasileiro não perde nunca. Se somos campeões, o radialista fala no "Microfone Penta-Campeão do Mundo"; se perdemos, o microfone ouve coisas incríveis, como "Perdemos pela Incompetência de X". Ainda não ouvi ninguém falar no "Microfone que levou um baile da França".
5. O jornalismo esportivo brasileiro é cheio de profetas do acontecido. Nos programas esportivos, costuma-se ouvir centenas de "Eu não avisei?" e de "Tava na cara". Ou seja, o jornalista já sabia antes. O estranho é normalmente não lembramos de seus avisos prévios. O jornalismo esportivo brasileiro parece dotado de uma estranha bola de cristal que aponta para o passado.
6. O jornalismo esportivo brasileiro não erra. Se Parreira venceu com Dunga, ele venceu apesar de Dunga. Se Zagalo inventou Rivelino como ponta-esquerda de recuo, ele venceu apesar de uma escalação equivocada. (E olhem que não posso ser chamado de admirador de Parreira ou Zagalo!)
7. O jornalismo esportivo brasileiro é ignorante. É comum o jornalista desconhecer as regras do campeonato que comenta e é absolutamente normal o jornalista não saber quem são os jogadores dos outros times. A situação piora se o jogo é contra uma seleção do exterior. Neste caso, lê-se ou ouve-se que coisas como "Até que é violento esse Materazzi; em que time ele joga mesmo?" e Lampard pode tornar-se subitamente francês. Lampárr, companheiro de Zidane, certo?
8. O jornalismo esportivo brasileiro planta notícias, principalmente durante as férias dos jogadores. Quando a coisa está meio parada, inventa-se.
9. O jornalismo esportivo brasileiro não entende de tática de futebol. Ele diz que o ouvinte e o leitor não gostam de análises táticas. Mas este, penso, é um fenômeno mundial...
10. O jornalismo esportivo brasileiro, principalmente o televisivo, é morador de Rio e São Paulo e não tem a menor noção do que acontece nos outros estados. Por exemplo, ele pode conhecer vagamente o futebol espanhol, mas nada sabe do mineiro, ali ao lado.
Depois de destilar uma pequena parte de meu ódio, digo que a revista mensal Trivela, que já está em seu número 11, não precisa inventar nada nem fazer festa para o último vencedor.
Sem exageros, diria que a Trivela é uma revista de eruditos no assunto. Só fala sobre futebol e comenta com precisão tanto fatos ocorridos há trinta anos - como a campanha de Puskas como técnico do Panathinaikos ou o jogo Santos x Seleção do Chile que ajudou Pinochet -, quanto outros acontecidos há mais tempo ou a vitória do Inter no Mundial de Clubes no mês passado. E não se fala só de vencedores. No número anterior, havia uma interessante reportagem sobre um time da segunda divisão mineira que parecia desejar quebrar todos os recordes de derrotas que, como sabemos, pertencem por direito - não por fato - ao Íbis. E já houve artigos a respeito de jogos recentes que reuniam seleções de países africanos recém saídos de guerras e que envolviam enorme rivalidade em meio à ruína e pobreza.
Outra novidade é que os caras da Trivela fazem análises táticas. Sim, falam destas coisas que alguns comentaristas dizem ser "chatas para o ouvinte", mas que... Bem, mostrei a alguns amigos a Trivela de dezembro, onde Ubiratan Leal explicava como Ronaldinho foi parado pelo Chelsea e Real Madrid. Estranhamente, todos se interessaram muito por aquela coisa desagradável inventada por José Mourinho e Fabio Capello. E me cumprimentaram quando Abel Braga, técnico do Inter, disse que inspirara-se nestes times pra fazer a marcação ao dentuço.
Outra série muito interessante é sobre as grandes cidades do futebol. Em janeiro, há um artigo sobre os times do México, mas principamente sobre a capital. Em dezembro, o tema foi sobre o medo que os europeus têm de jogar em Istambul. Porém, o ponto alto do último número é a entrevista com José Pekerman e os 99 bons jogadores brasileiros disponíveis (ou quase) no exterior.
A Trivela tem um site. Porém, a revista é muito melhor. Ou seja, num mundo de Vejas e Placares, há as Rascunhos e Trivelas tentando nos salvar da mediocridade.
UM DISCO PORRETA
Quinteto D.956, de Franz Schubert,
por Alban Berg Quartett, com Heinrich Schiff ao violoncelo
[ EMI Classics CDC 7 47018 2 (1991, grav. 1983) ]
posted by MOACY CIRNE
12:55 AM
Comments:
Quarta-feira, Janeiro 17, 2007
No dia 10 de maio de 1998, o suplemento Mais!, da Folha de S.Paulo destacava na primeira página, fazendo do assunto em pauta a matéria principal de todo o Caderno: "A ÚLTIMA UTOPIA - Há exatos 30 anos, 20 mil estudantes enfrentaram a polícia em Paris na noite das barricadas, auge das revoltas de 1968, quando milhões de jovens em todo o mundo saíram às ruas para mudar a vida". Nas páginas seguintes, o Mais! chamava a atenção para algumas das famosas pichações nas ruas de Paris e que marcaram, simbolicamente, o Maio Francês: Sejam realistas, exijam o impossível / É proibido proibir / A imaginação no poder / As paredes têm ouvidos; seus ouvidos têm paredes / Abaixo o realismo socialista; viva o surrealismo / Quando o dedo mostra a Lua, o imbecil olha o dedo / Barricadas fecham as ruas, mas abrem o caminho.
BALAIO INCOMUN 1933
Desde 1986
Rio, 17 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
CONTRAMEMÓRIAS 1998
Como outros potiguares e outros marcianos, também fiz a minha VIAGEM INSÓLITA através do Diário de Natal. E o fiz em 10 de maio de 1998:
Você é o que queria ser quando era adolescente?
Eu queria ser extraterrestre; hoje sou apenas poeta e cangaceiro.
Você se arrepende de alguma coisa?
Talvez sim, talvez ficção.
O que gostaria de ter feito e não fez?
Navegado pelo Seridó, entre Jardim e Caicó.
Qual o seu sonho atual?
Viajar para a Natal dos anos 20 e para o Rio dos anos 40.
Em que situações você mente?
Como poeta, posso mentir. Como cangaceiro, não minto jamais.
Conte um segredo de viajante.
Já estive em Saturno, São Saruê e Solaris, o planeta das águas encantatórias.
Qual o livro que você leu de um fôlego só e leria novamente?
Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa.
Quem mais o influenciou?
O cinema, o rádio, os quadrinhos...
O que você acha de pessoas loquazes?
Quando incompetentes, não me interessam.
É aborrecido envelhecer?
Para quem sabe ouvir, ler, sentir e ver, não existe o envelhecer.
Pessoas arrogantes e prepotentes merecem o quê?
O desprezo.
Você gosta de ouvir pessoas que não sabem ouvir?
Decididamente, não.
De que você tem medo?
À maneira de Faulkner, eu diria que entre a dor e o nada, tenho medo do nada.
Que tipo de música faz você sonhar com o paraíso?
Händel, Bach, Haydn, Mozart, Coltrane, Pixinguinha.
O que lhe seduz no jogo da criação?
A provocação.
Que tipo de música faz você ter pesadelos?
Axé music, axé music, axé music.
Gosta das festas do Grand Monde?
O Grand Monde é um mundo pequeno. Suas festas nada me dizem.
O imaginário apavora?
Ao contrário. O imaginário - sobretudo o imaginário em transe - é uma porta aberta para o delírio criativo. E mais do que nunca o delírio é uma necessidade existencial.
Como você convive com seus sonhos?
Procurando vivê-los, na exata medida do impossível.
Você é daquelas pessoas que acham arte moderna um amontoado de rabiscos?
Claro que não. Só que a verdadeira arte, de Bosch a Hélio Oiticica, sempre foi moderna.
O que você acha do dinheiro.
Dinheiro? Como professor universitário, não sei mais o que é dinheiro...
O que você prefere: Tambaba ou Museu do Louvre?
Tambaba e o Museu do Louvre, Pirangi e o CCBB, Búzios e o Paço Imperial.
A arte é necessária ou só frescura?
Viver é necessário?...
O que você faria se ficasse sozinho numa ilha onde só se ouve forró e axé music?
Prefereria ficar surdo para o resto da vida.
Qual a pessoa que você mais detesta?
FHC ou ACM. Os dois se equivalem. Ou se completam.
O que você nunca faria novamente?
Dançar um tango canadense na Matriz de Caicó, em plena Festa de Santana.
O que a boca diz quando a alma grita?
Te quero mais do que a um poema.
Qual a palavra que nunca deve ser dita?
Depende.
Qual o mal deste final de século?
A ditadura da mediocridade.
O que dói em Natal?
A miséria, como em qualquer outro lugar. E o turismo que privilegia, por exemplo, um reles foguetinho de Barreira do Inferno.
UM DISCO PORRETA
String quartets, op. 64, nos. 4, 5 & 6,
de Joseph Haydn,
por Kodály Quartet
[ Naxos 8.550674 (grav. 1992) ]
posted by MOACY CIRNE
1:21 PM
Comments:
Terça-feira, Janeiro 16, 2007
No campo da criação literária, José Bezerra Gomes e Luís Carlos Guimarães, já falecidos, constituem os nomes maiores da região seridoense, no interior do Rio Grande do Norte. [Aliás, são nomes maiores da poesia brasileira.] Mas, sobretudo nos últimos anos, têm aparecido poetas, ficionistas e mesmo historiadores (não esqueçamos, por exemplo, de Muirakytan Macedo) que dignificam a escrita marcada pelo sol e pela terra do Seridó. Cumpre conhecê-los. Cumpre divulgá-los. Cumpre amá-los. (Moacy CIRNE)
BALAIO INCOMUN 1932
Desde 1986
Rio, 16 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
A NOVA LITERATURA DO SERIDÓ
Ciclo
de Iara Maria
[ in Mulher na Janela ]
irrigaram mel
na minha veia
mês passado
menstruei formigas
<><><>
Cine
de Sebastião Vicente
[ in Sopão do Tião ]
rex / pax / fox
somos todos
x-man
de outrora
<><><>
Pequeno diário amoroso às margens do aquecimento global
de Wescley J. Gama
[ in A Taberna ]
Recendia do quarto um cheiro híbrido de amanhecer e atemporalidade. Sara resolveu ceder às pressões de Iago. Dormiram juntos muitos anos seguidos àquela noite, que arrepiava em conluio com o vento, daquela vez em que fizeram amor antes da tempesdade que incendiou todos os quarenta e sete casarões que formavam aquela pequena ilha olvidada sob as luzes ocasionais do Atlântico-Norte. Durante as dezoito gerações que se seguiram até o completo sumiço do pequeno arquipélago que resistia às margens do continente que o engolia e o engoliu em virtude do derretimento de gelo dos seus pólos, Iago e Sara não foram mais vistos, nem esquecidos.
Acari, quinze de setembro de dois mil e seis. noite.
<><><>
Um Homem em Chamas
de Theo G. Alves
[ in Museu de Tudo ]
um homem em chamas
não acorda a cidade
como
uma bomba
ou
um relógio
um homem em chamas
ateia fogo à casa vazia
como a
um calabouço
ou um deserto
um homem em chamas
faz silêncio
e seu couro
duro
desmancha o fogo
silencioso
um homem em chamas
dorme desfigurado
como
um cão
ou
uma lembrança morta
<><><>
Noviciado de signos
de Ana de Santana
[ in Danaides - Inventário de signos, 2005 ]
No rio alaranjado,
entre o espírito e a libido,
entrecruzando linguagens,
navega um barqueiro solitário.
Seu canto agudo até a estridência
atrai à margem
os que assuntam sentimentos.
Do rio,
entre o amarelo e o vermelho,
entre o masculino e o feminino,
atira flores de acácia.
Chama-me para a iniciação
das coisas secretas.
Com malícia no sorriso,
aceito o convite.
Nota do Balaio:
Decerto há outros poetas, outros ficcionistas, ou outros historiadores
e pesquisadores, igualmente bons, igualmente combativos,
que fazem a atual literatura do Seridó potiguar.
HOMENAGEM A JOSÉ BEZERRA GOMES
Três poemas
Limite
Marido e mulher
Todos
Irmãos
Sempre sábado
Naquele
sábado
a música
daquele
sábado
HOMENAGEM A LUÍS CARLOS GUIMARÃES
Partida de xadrez
A bruma era um afago
de frio na pele da noite.
Sentados em bancos de pedra,
velhinhos jogavam xadrez
sob as amendoeiras.
No taboleiro da praça,
quantos peões
repetiram a partida
na paisagem de amanhã?
[ in Ponto de fuga. Natal, 1979 ]
Memória / Repeteco
BALAIO PORRET@ 551
Rio, 24 de novembro de 2004
Correspondência
SOBRE ITALO CALVINO EM CAICÓ
Comentando livro As cidade invisíveis no Balaio de ontem, fizemos referência à presença de Italo Calvino em pleno Seridó. Pois bem, o historiador caicoense Muirakytan Macedo, um valente sertanejo das lutas acadêmicas, ontem mesmo enviou-nos a seguinte mensagem:
Olá, Moacy,
Ando lendo o Balaio e me deparo com o Calvino em Caicó. Verdade da mais pura. Ultimamente pesquisando na Biblioteca Olegário Vale encontrei um texto manuscrito assinado com a sigla I.C. Metade do texto é escrito em espanhol e a outra em italiano. O autor, que imagino ser o ítalo-cubano citado, rascunhava sobre a descoberta que tinha feito de uma aldeia sob uma imensa pedra no Poço de Santana. O acesso a esta aldeia foi relatado a ele por um apressado mocó que olhava um relógio esquisito e dizia a todo momento que estava atrasado. Depois de tomar uns chás de jurema nosso autor encolheu e se esguirou por uma loca que deu nessa aldeia liliputiana. Lá ele encontrou Marco Polo em pessoa; claro, bem velhinho e mentiroso como o quê. O resto da história é de domínio público, como você já sabe. A aldeia existe sim. Mas eu ainda não tive condições de entrar nela. É que sou alérgico a chá de jurema e, convenhamos, estou muito acima do peso para ser tolerado nestas experiências de encolhimento.
Abração saudoso
Muirakytan
UM DISCO PORRETA
Humberto Teixeira, o doutor do baião,
por Chico Buarque, Elba Ramalho, Sivuca, Caetano Veloso,
Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Wagner Tiso e outros
[ Biscoito Fino BF 533 (grav. 2002) ]
posted by MOACY CIRNE
3:11 AM
Comments:
Domingo, Janeiro 14, 2007
RECOMENDAMOS ESPECIALMENTE: Bob & Harv - Dois anti-heróis americanos, de Harvey Pekar e Robert Crumb. São Paulo: Conrad, 2006, 100p. Há que destacar A carta de Kissinger, American Splendor ataca a mídia, Rodando com Jack o Mensageiro enquanto ele sai pra negociar discos, Freddy vem para o fim-de-semana. São histórias-em-quadrinhos (do início dos anos 80) da melhor qualidade estético-narracional, com o traço "underground" característico do mago Crumb, cujos relatos da vida cotidiana são verdadeiras crônicas gráficas.
BALAIO INCOMUN 1931
Desde 1986
Rio, 14 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
A BIBLIOTECA DOS MEUS SONHOS:
600 livros indispensáveis (1/100)
Uma seleção crítico-afetivo-libertinária
[ Sem ordem preferencial e/ou cronológica,
em substituição aos LIVROS DE SÃO SARUÊ ]
Antologia do folclore brasileiro, de Luiz da Câmara Cascudo. São Paulo: Martins, 1956, 628p. [Presenteado, com dedicatória, por Maria Neide Pereira, em Caicó, RN, junho de 1958: o livro inaugural da minha Biblioteca das Águas Seridoenses.] Uma obra de Cascudo enriquece qualquer brasiliana, e esta seleção, ampla e criteriosa, figura entre os mais importantes títulos para uma compreensão da cultura brasileira em sua totalidade sóciocultural.
Antologia poética, de Murilo Mendes. Seleção de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL/MEC, 1976, 150p. [] O encontro literário dos dois maiores poetas da nossa textualidade poética só poderia resultar num livro primoroso: primoroso e luminoso. Tem mais: uma acurada apresentação de José Guilherme Merquior: À beira do antiuniverso debruçado ou Introdução livre à poesia de Murilo Mendes. Um livro único.
Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956, 594p. [] Um dos monumentos culturais da história literária da humanidade: neblinamento da mais pura e instigante prosa poética que se possa imaginar. Mais do que uma história de jagunços, com seu dilema faustiano, e de um amor supostamente proibido, com seu homossexualismo latente, GS:V é uma catedral de sons e desafios barrocos.
Diálogos III: A República, de Platão. Trad. Leonel Vallandro. Porto Alegre: Globo, 1964, 318p. [Adquirido em Recife, PE, fevereiro de 1965.] Um dos pilares filosóficos do pensamento ocidental, em todos os tempos. Três citações: "Os guerreiros devem ser humanizados pela educação" (p.99); "O amor, a embriaguez e a loucura são diferentes formas de tirania" (p.265); "O verdadeiro prazer é absoluto e não relativo" (p.277).
La ideologia alemana, de Carlos Marx & Federico Engels. Trad. Wenceslao Roces. Montevideo: Pueblos Unidos, 1963, 750p. [] Uma biblioteca sem pelo menos um livro de Marx que me parecer uma biblioteca sem vida intelectual. A presente edição compreende não só A ideologia alemã propriamente dita como alguns anexos, entre os quais as famosas Teses sobre Feuerbach. Afinal, mais do que compreender o mundo, é preciso transformá-lo.
Bloodstar, de Richard Corben. Paris: Humanoides Associés, 1981, 96p. [Álbum adquirido na Livraria Leonardo Da Vinci, no Rio, em 1982.] Corben começou a se destacar no período dos comix americanos sob a voltagem da contracultura dos anos 60 e atinge, nesta HQ de 1976, uma tessitura quadrinhística que é a expressão maior da modernidade gráfico-narrativa da época. História baseada em Robert E. Howard. Obra-prima.
UM FILME PORRETA
The seven year itch / O pecado mora ao lado (USA, 1955),
de Billy Wilder,
com Marilyn Monroe, Tom Ewell, Evelyn Keyes.
Comédia típica dos anos 50, ou melhor, comédia típica do criador de Quanto mais quente melhor (1959), ligeiramente romântica, ligeiramente crítica, bastante sensual. Um filme para ser visto e revisto, com prazer.
UM DISCO PORRETA
Uma rosa para Pixinguinha,
com Elizeth Cardoso,
por Radamés Gnattali & Camerata Carioca
[ Funarte / Atração Fonográfica ATR322018 (grav. 1983 ) ]
* Principais faixas: Fala baixinho, Ingênuo, Marreco quer água, Tapa buraco, 1 a 0, Rosa, Lamentos, Carinhoso, Uma rosa para o Pixinguinha (de Radamés).
posted by MOACY CIRNE
10:55 AM
Comments:
Sábado, Janeiro 13, 2007
Entramos no clima da agitação do verão carioca. Primeiramente, Chico Buarque no Canecão, quinta à noite: um espetáculo apolíneo, em sua beleza carregada de tons e sons sagrados. Depois, ontem, igualmente à noite, nas imediações da Praça Mauá, sob as bênçãos da eterna Gamboa, uma animadíssima roda-de-samba, sob o signo do próximo carnaval, do bloco Escravos da Mauá (beleza pura!); a seguir, no Circo Voador, terminando em plena madrugada, Zélia Duncan: um espetáculo dionísíaco de rara densidade cênico-primitivo-popmusical. Mas tem mais, claro, além de uma viagem a Arraial do Cabo (já realizada, por sinal). Precisamos ver qual a programação cinematográfica da semana. E não podemos perder a exposição de Calder no Paço Imperial. Ah, sim: e quando é que começa mesmo o campeonato estadual? Cinco meses sem ir ao Maraca parece-nos uma eternidade. Enfim, o Rio continua o Rio, de janeiro a dezembro. (Moacy Cirne)
BALAIO INCOMUN 1930
Desde 1986
Rio. 13 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
Almanaque do Balaio
RELENDO PALIMPSESTO,
uma pauta aberta de Hildeberto Barbosa Filho (PB)
[ in nº 50, de 23/05/1996 ]
A poesia
É meu ofício cotidiano
(Antonio Morais de Carvalho)
Um poema como um peixe
que é giz e glória
das manhãs
(José Antonio Assunção)
Aquém desse mundo, o verso
se desmascara:
lavoura de estéreis seixos
e nula safra
(Bráulio Tavares)
nem sempre o poeta
ronda o poema
como uma fera à presa
(Sérgio de Castro Pinto)
Que o poema vos seja como o dia:
jogo de tempo que a si mesmo
destróio que depois se cria
(Vanildo Brito)
Não sei
se minhas palavras voarão:
não sei sequer se terão asa.
Mas elas estão sempre dentro de mim
como uma casa dentro de outra casa
(Marcos Tavares)
ESQUERDA E DIREITA
por Ivan Maciel de Andrade (RN)
[ in Tribuna do Norte, em Artigos ]
Há quem, ouvindo falar nessa divisão ideológica, resmungue que esse é um assunto que não interessa mais a ninguém. Uma questão superada desde 1989, quando foi derrubado o muro de Berlim. Um amigo meu de boas leituras reagiria a esse tipo de raciocínio lembrando que Norberto Bobbio (1909-2004) escreveu um livro em que demonstra a atualidade dessa distinção, embora sob novos critérios: Direita e esquerda - razões e significados de uma distinção política (1994). A esquerda representa a tendência igualitária - igualdade (não igualitarismo) de valores (humanos, ético-jurídicos e culturais) e de oportunidades. Enquanto que a direita oferece o suporte ideológico às teses inigualitárias, baseadas numa espécie de darwinismo social, sintetizado, como lembra Carlos Fuentes ("Este é meu credo"), no pensamento do ex-presidente dos Estados Unidos Ronald Reagan: "só é pobre quem não gosta de trabalhar". Fuentes esgrime verdades que ninguém nega, mas que muitos rejeitam por preconceito conservador ou medo de um hipotético retorno da "ameaça comunista" (coisa sem a mínima possibilidade histórica de acontecer no mundo globalizado em que vivemos): "O muro de Berlim caiu. Destruiu-se a União Soviética. O que não se destruiu foi a injustiça social. O que não se derrubou foi a exploração do homem pelo homem".
É preciso reconhecer que as esquerdas tiveram a lucidez e dignidade de condenar - através de seus maiores intelectuais, nas mais diferentes partes do mundo - as ditaduras sanguinárias, execráveis dos regimes comunistas, representadas por Stalin e Mao Tsé-Tung. E, hoje, em sua grande maioria, denunciam os crimes da ditadura de Fidel Castro, que prende e executa os seus inimigos políticos. Da mesma forma como enfrentaram as ditaduras de direita, de Hitler a Pinochet, símbolo dos regimes militares que dominaram durante décadas os países da América Latina. Mas as esquerdas lutam também contra a intolerância religiosa, étnica, cultural, que promove genocídios e justifica ações como a invasão do Iraque, em que a dominação militar, com nítidos intuitos de hegemonia política e econômica, se disfarça sob o rótulo da democracia e da liberdade. Há uma outra forma de ditadura sutil e quase que impossível de combater: a da indiscriminada liberdade do mercado, que mantém países, povos, regiões submetidos à miséria, ao atraso, à marginalidade, em razão de um círculo vicioso que aumenta cruelmente as desigualdades entre ricos e pobres.
Esse assunto me leva a antigas lembranças. Um irmão de meu pai, Floriano, era um autodidata. Comerciante - tinha um pequeno estabelecimento em Natal, na esquina da Princesa Isabel com a Apodi, no tempo em que não havia supermercados e shoppings - e se dedicava a ler, nas horas de folga. Eu era adolescente e vi, pela primeira vez, em sua casa, o Manifesto Comunista (1848) de Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895). Recordo-me que, por iniciativa e empréstimo dele, li O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte e Contribuição para a crítica da economia política de Marx. Li também, da sua pequena, mas selecionada biblioteca, obras escritas por Plekhanov (1856-1918), Rodolfo Mondolfo (1877-1976), Luckás (1885-1971). Lembro que li, de Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado e o Anti-Düring. Mas uma das melhores leituras que ele me proporcionou foram as Cartas do Cárcere de Gramsci (1891-1937). O volume estava bastante usado, cheio de anotações e comentários marginais. Ele tinha também vários livros de Sigmund Freud (1856-1939). Um, pelo menos, recordo-me que li, empolgado: A psicopatologia da vida cotidiana. Na verdade, Floriano tinha duas grandes paixões: o Vasco da Gama e as concepções de esquerda - estas, para ele, uma espécie de intocável código ético.
Segundo Carlos Fuentes, há um encontro entre poesia e política: diz Rimbaud - é preciso mudar a vida; e Marx - é preciso transformar o mundo. Esse o sentimento que fazia Floriano ler autores que criticam as injustiças sociais e propõem utópicas formas de organização da sociedade.
UM DISCO PORRETA
Les quatuors: nº 13, op. 13 & Grande fugue, op. 133,
de Ludwig van Beethoven,
por Quatuor Végh
[ Auvidis-Valois V 4407 (1986, grav. 1973) ]
posted by MOACY CIRNE
9:51 AM
Comments:
Sexta-feira, Janeiro 12, 2007
Creio que o cinema não pode admitir mais que um gênero concreto de filmes: unicamente aquele em que sejam utilizados todos os meios de ação sensual do próprio cinema. ... Reivindico, pois, os filmes fantasmagóricos, poéticos, no sentido denso, filosófico da palavra, filmes psíquicos. (Antonin ARTAUD. El cine. Madrid: Alianza, 1982, p.7)
BALAIO INCOMUN 1929
Desde 1986
Rio, 12 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
40 ANOS DE RIO
No próximo 12 de março, às 5 da tarde, completarei 40 anos de Rio de Janeiro. Ao lado de Natal e Caicó, o Rio é a cidade que mais me sensibiliza, mais me toca, mais me emociona. E depois de ver o carioca Chico Buarque no Canecão, há pouco, sou tomado pelas mais doces e/ou inesperadas lembranças: momentos que me fizeram e me fazem amar cada vez mais esta Mui Leal e Gloriosa Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Momentos especiais (em ordem mais ou menos preferencial, em ordem mais ou menos cronológica) como os que seguem, cuja importância centra-se, muitas vezes, no puramente afetivo, considerando-se certas particulares que são só minhas, e que poderiam ter sido vivenciadas em outros lugares:
1. Os nascimentos de Ana Morena (1986) e Isadora (1990).
2. O aprofundamento da amizade com alguns natalenses: Moacyr de Góes, Conceição, Nei Leandro, Danilo Bessa e outros - Clara, Leon, sobretudo.
3. As novas amizades: Luiz Rosemberg Filho, Jefferson Martins, Wlademir Dias Pino, Chico Menezes, Kátia Silveira, Regina Pouchain, Jorge Guidacci, Jussara Ribeiro, João Batista, Davide Mota, Alceste Pinheiro, Rosa Amanda, José Marinho, Antonio Serra, Mário Pontes, Maria José Coelho.
4. As decisões futebolísticas entre Flamengo e Fluminense, no Maraca.
5. Os títulos cariocas de 1969, 1971, 1973, 1975, 1976, 1980, 1983, 1984, 1985, 1995, 2002 e 2005.
6. Os títulos nacionais de 1970 e 1984.
7. A fundação do poema/processo, em 1967.
8. Clássicos na Cinemateca do MAM.
9. Godard no Paissandu.
10. Antonioni, em vários cinemas.
11. A militância no Partido Operário Comunista, em 1968-69. E a passeata dos 100 mil.
12. A militância na Política Operária, em 1972-82. E a luta contra a ditadura.
13. A militância no Partido dos Trabalhadores (1980-1996).
14. 2001 na telona do Roxy (em 1968).
15. A Revista de Cultura Vozes (1971-1980).
16. Livros franceses na Leonardo Da Vinci: Althusser, Bachelard, Metz e outros.
17. Livros marxistas em grande quantidade: Lênin, Marx, Mao e outros.
18. HQs e mais HQs: bande dessinée, fumetti, comics, historietas.
19. O primeiro livro: A explosão criativa dos quadrinhos (1970).
20. Teatro: O & A e O rei da vela (em 1968).
21. A redescoberta da ficção científica: Bradbury, Clarke, Simak, Lem, Sturgeon.
22. Expoesia, na PUC, em 1973. Poemação, no MAM, em 1974.
23. O Balaio, em 1986.
24. Chico Doido de Caicó, em 1991.
25. A campanha presidencial de Lula em 1989.
26. A Universidade Federal Fluminense (1971-2003).
27. A descoberta da música antiga (medieval e renascentista).
28. O reencontro com Bach, Monteverdi, Händel, Beethoven.
29. O choro e o samba de raiz. A música de Paulinho da Viola.
30. Laranjeiras e Cosme Velho, Lapa e Catete. E Vila Isabel. A enseada da Praia de Botafogo.
31. História e crítica dos quadrinhos brasileiros (1990), livro premiado em Cuba.
32. O Cinema Odeon.
33. O Centro Cultural Banco do Brasil.
34. O Paço Imperial. O Museu Nacional.
35. A Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, no Largo da Carioca.
36. Folha Seca, Berinjela, Prefácio, Luzes da Cidade e Travessa - livrarias.
37. A Biblioteca Nacional. E o Museu de Belas Artes.
38. Caminhadas nas Paineiras e no Aterro do Flamengo. E na Lagoa Rodrigo de Freitas.
39. O Jardim Botânico. E o Parque Laje. E o Parque Guinle.
40. A Feira de São Cristóvão. E as garotas de Ipanema.
Revisão das revisões
O MELHOR DO CINEMA BRASILEIRO
1. Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964)
2. Terra em transe (Glauber Rocha, 1967)
3. Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963)
4. Porto das Caixas (Paulo César Saraceni, 1962)
5. O bandido da luz vermelha (Rogério Sganzerla, 1968)
6. O padre e a moça (Joaquim Pedro de Andrade, 1966)
7. Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1984)
8. Assuntina das Amérikas (Luiz Rosemberg Filho, 1975)
9. São Paulo S/A (Luiz Sérgio Person, 1965)
10. Blablablá (André Tonacci, 1968), curta
UM DISCO PORRETA
Chants sacrés de l'Orient,
por Marie Keyrouz
[ Harmonia Mundi HMA 1951497 (2001, grav. 1993) ]
posted by MOACY CIRNE
9:21 AM
Comments:
Quinta-feira, Janeiro 11, 2007
O jovem não precisa de razões para viver; precisa só de pretextos. (Ortega y Gasset, A rebelião das massas, XIV, in Paulo RONÁI, Dicionário universal de citações [1985]. São Paulo: Círculo do Livro, s/d, p.519.)
BALAIO INCOMUN 1928
Desde 1986
Rio, 11 de janeiro de 2007
Poema/Processo, 40 anos
Contato: balaio86@oi.com.br
NO JOIO A FUNDO
Poema de Iara Maria (RN)
[ in Mulher na Janela ]
têm um jeito de ásia
meus olhos quase ateus
(graças a deus)
meus olhos têm confusa
raiz continental
funda afunda profunda
olhos de água baldeada
maretas migrando convulsa íris
no limo da revência plantada
tem um jeito de ásia
minha córnea mutilada
o mundo é um caco
um oco
(um pouco de tudo sozinho)
desde fundada a cegueira
só creio nas flores que espinho
Memória 1967
OS MELHORES FILMES DO CINEMA
segundo Rubem Biáfora (SP)
[ in Filme Cultura, nº 7. Rio, out-nov 1967 ]
1. As jovens Afrodites (Kondouros)
2. Ano passado em Marienbad (Resnais)
3. A noite (Antonioni)
4. O morro dos ventos uivantes (Wyler)
5. O cântico dos cânticos (Mamoulian)
6. Vida de artista (Futakawa)
7. Sede de paixões (Bergman)
8. Condenado pela consciência (Uchida)
9. Hiroshima, meu amor (Resnais)
10. Na trilha das feras (Sugawa)
11. A maldição do sangue de pantera (Fritsch & Wise)
12. O pirata (Minnelli)
13. A saga de Gosta Berling (Stiller)
14. Trinta anos esta noite (Malle)
15. Aleluia! (Vidor)
16. Schatten (Robinson)
17. Tensão em Shangai (Sternberg)
18. A canção da despedida (Gosho)
19. Os mil olhos do Dr. Mabuse (Lang)
20. O crime da quinta (Kinugasa)
POESIA E RESISTÊNCIA
por Narciso Lobo (AM)
[ in Jornal da Selva ]
Acaba de nascer um precioso álbum dedicado às Revistas Literárias Brasileiras, organizado pelo poeta Paco Cac (pacocac@terra.com.br). Trata-se de amostra oportuna, porque salva do esquecimento dezenas de publicações, aparecidas em diferentes cidades, entre 1970 e 2005. Hoje professor de literatura em Brasília, o carioca Paco militou, e mercadejou, suas produções, naqueles tempos difíceis, do regime militar, em que o ato poético não se resumia à composição de poemas registrando dores, alegrias e/ou estranhamentos diante de um cotidiano bicudo. Mas exigia que se fosse à luta.
Na verdade, como lembra Paco, na bela Apresentação, o fenômeno das revistas literárias é bem antigo, entre nós, e remonta ao próprio surgimento da imprensa, com a vinda da Família Real, em 1808, fugindo da ameaça da guerra napoleônica na Europa. Mas o recorte, a partir de 1970, tem um significado muito especial para a "geração mimeógrafo", que viveu as agruras do período Médici (1969-1973), quando toda a inquietação, não apenas política, mas cultural ou poética, estavam na absoluta clandestinidade. Este álbum, resultado de uma pesquisa em arquivos pessoais, acaba ressuscitando publicações que, naqueles anos de chumbo, folheávamos com a nítida sensação de quem estava resistindo, não pela força das armas, mas pela força das letras. Portanto, tomar contato com esse volume 1 teve para mim o significado de empreender uma viagem a um tempo, marcado por incertezas, mas igualmente por gestos heróicos de desprendimento e de entrega, independentemente das conseqüências.
Como não tínhamos canais para a expressão de nossas mensagens, reuníamos singelos cruzeiros, resultado de vendas antecipadas, ou de coletâneas de poemas impressas em mimeógrafos, para saltos mais ousados, como imprimir uma revista. Em meio a muitas publicações mambembes, sem qualquer cuidado técnico, acabaram surgindo revistas mais aprumadas, como Navilouca e Anima, ao lado de outras, bem mais modestas, como Feto, Gandaia, ou Urbana, misturando poetas de todas as águas, desde Torquato Neto e Leminski, hoje ícones, passando por nomes que, na maioria dos casos, poetaram como forma de se manterem vivos.
A publicação organizada por Paco procura generosamente mapear o Brasil por inteiro, incluindo até mesmo Sirrose (2005), de Manaus, mas a força maior desta iniciativa está na recuperação de revistas, que, na maioria das vezes, tiveram edição única, marcando intervenções poéticas de alto cunho contestatório, e normalmente vendidas de forma direta, mão a mão, dado que bem poucas livrarias se arriscavam a expor material de tão alto poder detonador, que sequer passava pelas malhas insensatas da Censura.
Folheando esse oportuno memorial, não tive como não como retornar a 1974, já sob o período Geisel, quando se organizou, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, um evento denominado Poemação. Ali, entre receios, conflitos e leituras as mais diversas sobre o momento político, os poetas tentavam erguer suas vozes. E nunca esqueci, no dia da abertura, quando irrompeu, de repente, no amplo salão, o poeta Samaral, já falecido. Seus olhos emitiam fogo, a camisa aberta; e ele gritava, a plenos pulmões: "O poema sou eu; eu sou o poema".
Nota do Balaio:
O livro Revistas literárias brasileiras 1970-2005, de Paco Cac, será lançado hoje, na Livraria do Museu da República (Rua do Catete, Rio), a partir de 19h.
posted by MOACY CIRNE
8:38 AM

|